Pal Benko, 1928-2019
Benko em um torneio em 1964. | Foto: F.N. Broers/Anefo.

Pal Benko, 1928-2019

PeterDoggers
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O Grande Mestre húngaro-americano Pal Benko faleceu aos 91 anos. Duas vezes candidato ao título mundial, ele também era autor e compositor de estudos de finais e problemas de xadrez. O Gambito Benko recebeu o nome dele.

A notícia sobre a morte dele veio através da Grande Mestre húngara-americana Susan Polgar no Twitter. Polgar confirmou a notícia com a esposa de Benko, Ziki.

A Federação de Xadrez dos EUA também reportou a morte de Benko no seu site.

Pal Benko nasceu em 15 de julho de 1928, em Amiens, França, onde a família dele estava fazendo uma viagem. Benko passou a maior parte da sua infância na Hungria, onde ele aprendeu a jogar xadrez com o seu pai aos 10 anos. Ele também praticava outros esportes.

Sua infância feliz foi seguida por um período desastroso para o Benko, como para o mundo todo: A Segunda Guerra Mundial. Sobre essa época sombria da história, ele próprio fez o seguinte relato:

Quando eu tinha 16 anos eles me mandaram para o exército. Fui obrigado a cavar valas em algum lugar na fronteira austríaca. Eu fugi e consegui voltar para casa apenas para descobrir que meu pai e meu irmão não estavam mais lá. Eles foram enviados para a Rússia como “prisioneiros de guerra”. Prisioneiros de guerra? Eles não eram nem soldados! Assim eram as coisas. Alguém poderia terminar como prisioneiro sem nenhuma razão naquela época. Eles nunca mais viram minha mãe, porque ela morreu durante a prisão deles na Rússia. Meu pai foi libertado depois de um ano e meio e logo depois ele desertou para os EUA.

Depois que a guerra terminou, Benko levou apenas alguns anos para se tornar o jogador de xadrez mais forte do seu país e, em 1948, aos 20 anos, ele ganhou o seu primeiro Campeonato Húngaro. No final dos anos 40 e início dos anos 50, Benko era o segundo do seu país, atrás só de Laszlo Szabo. Enquanto isso, ele trabalhava como contador.

Depois disso, outro período ruim começou na vida de Benko ("Minha desgraça", como ele chamou em sua autobiografia de 2003 Pal Benko: My life, Games and Compositions). Depois de jogar um torneio em Goerlitz, Alemanha Oriental, em março de 1952, ele tentou desertar na embaixada Americana em Berlin Ocidental, mas foi preso pela polícia, levado para a Hungria e interrogado por três semanas. As autoridades pensaram que ele era um espião americano.

"Durante esse tempo eu fui deixado numa cela de prisão, não havia contato com ninguém além das pessoas que estavam me questionando”, escreveu Benko. “Não era permitido dormir e luzes brilhantes ficavam constantemente no meu rosto”.

No final, ele foi enviado para um campo de concentração com condições muito ruins, com quase nenhuma comida ou luz do dia, por um ano e meio. Ele viu muitos outros prisioneiros sucumbirem à fome. Enquanto a sua família pensava que ele tinha fugido para os EUA, Benko só conseguiu sair do campo de concentração depois que o líder soviético Joseph Stalin morreu em 1953, e o presidente húngaro Imre Nagy anistiou a maioria dos prisioneiros.

Por um tempo, Benko foi visto como uma “ovelha negra” e foi negada a sua participação em vários torneios internacionais. Cinco anos após a sua libertação, ele pôde finalmente iniciar sua desejada emigração para os EUA. Ele desertou depois de ter jogado o Campeonato Mundial Estudantil por Equipes em Reykjavik, Islândia, onde recebeu um visto na embaixada americana.

Mais tarde, muitos pensaram que ele havia sido um dos muitos húngaros que haviam fugido do país após a dura resposta dos soviéticos à revolução de 1956. No entanto, como a cota para refugiados húngaros nos EUA atingiu seu limite de 30.000, Benko acabou entrando no país desejado com seu passaporte francês, já que ele havia nascido na França.

Como resultado, ele nunca recebeu os benefícios que outros refugiados de seu país receberam, mas devido às dificuldades anteriores, ele apreciou os pequenos prazeres da vida.

Ele escreveu: “Tudo tinha um brilho maravilhoso, a comida tinha gosto de néctar e as mulheres pareciam tão bonitas que eu tinha que namorar o maior número possível.”

Tendo estudado economia na Hungria, Benko inicialmente trabalhou na Bolsa de Valores de Nova York. Quando ele se classificou para o Torneio de Candidatos de 1959, um ano depois da FIDE ter concedido a ele o título de Grande Mestre, ele decidiu se tornar um profissional de xadrez.

Ele terminou em último lugar em 1959 (o torneio foi vencido por Mikhail Tal, que acabou vencendo Mikhail Botvinnik no Campeonato Mundial do ano seguinte), mas venceu o campeão mundial Vasily Smyslov numa partida:

Benko se classificou para o Torneio de Candidatos de 1962, onde ele terminou em sexto lugar, atrás de Tigran Petrosian, Paul Keres, Efim Geller, Bobby Fischer e Viktor Korchnoi, e à frente de Tal e Miroslav Filip.

Aqui está uma vitória dele contra o Tal naquele evento, quando ele usava sua abertura de estimação naquela época, 1.g3:

No Campeonato dos EUA de 1968, Benko ganhou a seguinte bonita miniatura:

Por ter terminado em terceiro lugar no Campeonato dos EUA de 1969, Benko se classificou para o Interzonal de 1970, em Palma de Mallorca junto com Samuel Reshevsky e William Addison. Fischer optou por não jogar esse campeonato nacional, que serviu como um evento zonal e, por tanto, foi o primeiro passo para o ciclo do campeonato mundial de 1969-1972. Alegando que o torneio era “muito curto”, Fischer efetivamente se retirou do ciclo.

Benko sentiu-se confiante de que Fischer teria grande chance de ganhar o título (ao contrário de si mesmo), então ele decidiu desistir do seu lugar no Interzonal. Isso possibilitou a participação de Fischer em Palma de Mallorca, de vencer lá com uma margem de 3,5 pontos e, eventualmente, se tornar campeão mundial em 1972.

Em resposta a acusações de ter sido pago para desistir do seu lugar, Benko escreveu em julho de 1975 no Chess Life & Review:

A ideia de eu ter desistido e ter dado o meu lugar ao Fischer foi minha; isso foi feito de forma voluntária e sem pressão de ninguém. Eu senti que como um dos melhores jogadores do mundo, ele deveria ter o direito de participar daquele Interzonal. A Federação Americana de Xadrez sempre me tratou bem; pela minha ação, eu esperava demonstrar minha gratidão. (A USCF me deu a oportunidade de me classificar para o Interzonal em Amsterdã, em 1964, organizando um match com Bisguier, que havia se classificado, e eu, que não tinha. E tem tido muitas outras coisas pelas quais sou grato à USCF).

A quantia de $2.000 é mencionada algumas vezes como o preço que eu recebi para desistir. Na verdade, essa taxa foi paga, mas foi pelo meu serviço como segundo do Reshevsky e Addison naquele torneio, e é a mesma quantia que eu teria recebido como uma taxa de aparição se eu realmente tivesse jogado. A única condição que eu pedi para desistir da minha vaga era que Fischer concordasse em não se retirar do Interzonal ou dos matches seguintes, se ele se classificasse para eles, e ele cumpriu essa condição.

Durante a sua carreira, Benko ficou conhecido como “Rei das Aberturas” ao vencer o U.S. Open, um recorde de oito vezes, nos anos 1961, 1964, 1965, 1966, 1967, 1969, 1974 e 1975.

Ele jogou em sete Olimpíadas. Na primeira, ele fez 10/15 no tabuleiro três (atrás do mencionado acima Szabo e Gedeon Barcza), ajudando a equipe da Hungria a conseguir o bronze em 1956 em Moscou. Ele jogou seis vezes pelos EUA entre os anos de 1962-1972. Ele ganhou a prata pelo segundo tabuleiro em Varna, em 1962, e prata por equipe em Havana, em 1966.

Com o falecimento de Benko, uma era do xadrez americano por equipes terminou. Todos os jogadores ativos na Olimpíada de 1970 já se foram: Benko, Fischer, Reshevsky, Larry Evans, William Lombardy e Edmar Mednis.

Ao longo de sua carreira, Benko derrotou quatro campeões mundiais: Fischer, Tal, Petrosian e Smyslov. Sua pontuação contra Fischer foi de três vitórias, oito derrotas e sete empates.

Além de jogar 1.g3 com sucesso (ele derrotou Fischer e Tal com ele nos Candidatos de 1962 - a partida com o Tal foi mostrada anteriormente e a partida com o Fischer está bem acima desse texto), o maior legado de aberturas teóricas do Benko é, claro, o Gambito Benko: 1.d4 Cf6 2.c4 c5 3.d5 b5.

Nos países do Leste Europeu ele era conhecido como Gambito Volga e na época o próprio Benko chamava 1.d4 Cf6 2.c4 c5 3.d5 b5 de Volga e 1.d4 Cf6 2.c4 c5 3.d5 b5 4.cxb5 a6 de Benko. Atualmente, essa abertura costuma ser chamada de Gambito Volga-Benko.

A abertura se tornou tão popular e a teoria se expandiu tão rapidamente que o próprio criador perdeu interesse em jogá-la.

“Eu criei um monstro”, ele disse. “Eu achei necessário recorrer a outras aberturas em meados dos anos setenta”.

Admitido no Hall da Fama do Xadrez em 1993, Benko foi também um entusiasta compositor de estudos e problemas, e recebeu o título de Mestre Internacional de Composição de Xadrez da FIDE.

Yochanan Afek, um Grande Mestre de Composição desde 2015, disse que Benko era “muito especial” no mundo dos estudos sobre finais: “Ele compôs estudos realmente bons, mas eram estudos semelhantes a partidas. As posições eram muitas vezes naturais para jogadores extremos e solucionadores de problemas, mas de maneira alguma eram fáceis. Também é interessante notar que, comparado com outros compositores, ele era bastante preciso na composição. Ele fez estudos a maior parte da sua vida sem o uso de engines, e poucos deles foram refutados. Ele foi um ótimo analista, e ganhou muitos prêmios, especialmente em torneios de estudos da Hungria.

Afek mostrou três dos seus estudos favoritos de Benko:

Benko também compôs problemas, como mate ajudado (geralmente mostrando humor típico de xadrez!) e mates para resolver. Aqui está um exemplo famoso, que ele compôs aos 15 anos, mas foi publicado em 1968 na Chess Life & Review.

As Brancas dão mate em três.

Benko era um escritor prolífico. Sua coluna no Chess Life durou pouco mais de 46 anos, de abril de 1967 a dezembro de 2013. Em 2013, ele optou por se aposentar, mas continuou contribuindo regularmente depois disso.

“Ele era incrivelmente fácil de trabalhar” disse o ex-editor do Chess Life, agora diretor sênior de comunicação estratégica, Dan Lucas. “Não havia dificuldades com ele. Ele sempre enviava sua coluna na hora e sempre ficava feliz em ver seu material impresso. Se esse editor aqui não entendesse alguma coisa e o questionasse sobre isso, ele simplesmente reformulava o material até que eu pudesse entendê-lo. Ele também não se importava com as minhas credenciais como jogador (ou a falta delas), ele simplesmente me aceitou pelo que eu era, a pessoa contratada pelo US Chess para editar a sua coluna. Ele era um profissional completo.”

"Incomôdo, mas tinha que vir - especialmente quando eu percebo que posso ser o próximo na fila", disse o MI Antony Saidy, contemporâneo de Benko. “Ganhar a vida nos infernais torneios suíços de final de semana dos EUA distorceu seu estilo, quando ele passou a dominá-los. No nível superior, ele era altamente posicional, mas o relógio o atormentava (uma doença americana - basta ver Reshevsky, Sherwin, Lombardy, Saidy)".

Saidy: “Gosto muito de citá-lo em uma análise post-mortem, mantendo o ritmo da língua húngara, pois suponho que ele esteja nesta hora conversando com Tal, Gligoric, os irmãos Byrne e outros: “Não se engane!”

O GM americano Lev Alburt, que desertou da União Soviética em 1979, escreveu: “Eu conheci Pal por muitos anos. No anos 80 nós jogamos algumas partidas e, em algumas ocasiões, analisamos juntos o seu/nosso gambito. Ele era autoconfiante, bem ajustado ao mundo dos homens. Ao contrário de muitos outros jogadores, ele não se queixou de ter sido negada a oportunidade de alcançar níveis mais altos, ele não era amargo: mesmo que tivesse perdido vários de seus melhores anos na cadeia e depois em uma cadeia maior na Hungria comunista. Por causa do nosso conhecimento em primeira mão do comunismo, tínhamos opiniões semelhantes sobre muitos assuntos. Lembro-me de uma frase que gostamos: que o socialismo é um caminho para o inferno, e o comunismo é um verdadeiro inferno. Pal era um cara legal; Eu - e muitos outros, e o xadrez, certamente - sentirei sua falta.

A campeã mundial Susan Polgar era próxima ao Benko, e o visitou em Budapeste apenas uma semana antes dele falecer.

Polgar disse: “Eu sabia que talvez fosse a última vez que o veria, mas estava otimista que não seria. Ele não estava em boa forma, mas eu não esperava isso".

benko with Susan Polgar
Benko com a sua esposa Ziki e a GM Susan Polgar. Foto: Susan Polgar.

Polgar descreveu Benko da seguinte maneira:

Quando ele visitou nossa família no final dos anos 80 e início dos 90, ele foi generoso com seu tempo e nunca cobrou um centavo. Ele compartilhou muitos de seus brilhantes finais comigo e minhas irmãs [Sofia e Judit], principalmente os práticos, também os mates ajudados, pelas quais ele era muito apaixonado. Também jogamos muitos blitz.

Naqueles anos ele estava vivendo uma vida dupla, passando seis meses nos EUA e seis meses na Hungria. Ele é o verdadeiro exemplo do típico Húngaro-Americano. Ele é um ícone em ambos os países.

Ele era uma pessoa muito generosa, de bom coração, apaixonado. No xadrez, como jogador, como compositor, e com a sua família, seus filhos e política. Ele teve uma vida difícil, mas fez o melhor possível.

Benko deixa sua esposa, seus dois filhos e um neto.

Mike Klein contribuiu para este relato.

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