Finais de torres - mais comuns do que você imagina

Finais de torres - mais comuns do que você imagina

GMKrikor
GM GMKrikor
09/10/2017, 11:01 |
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Uma partida de xadrez é dividida em três fases: abertura, meio-jogo e final. É comum que a definição aconteça apenas nessa última fase, principalmente quando o jogo acontece entre dois jogadores ou jogadoras de um nível similar. Essa área de estudo é muito interessante e engloba uma infinidade de possíveis situações. Uma delas é o final de torres, quando sobram apenas torres e peões para cada lado.

Para se ter uma ideia, dentre os finais onde um dos exércitos possui apenas uma peça (dama, torre, bispo ou cavalo) além dos peões, o final de torres é de longe o mais comum!

Vamos às estatísticas, que você sabem que eu adoro happy.pnghappy.png

Fazendo a busca em mais de 7 milhões de partidas (7.062.257) na minha base de dados, temos em ordem de colocação:

  1. Finais de torres - 649.047 partidas
  2. Finais puros de peões - 253.258 partidas
  3. Finais de bispo x cavalo - 248.660 partidas
  4. Finais de bispos - 214.675 partidas
  5. Finais de damas - 142.019 partidas
  6. Finais de cavalos - 118.442 partidas

Ou seja, 9,19% ou 1 a cada 11 partidas que você jogar cairá em um final de torres. Fiz a busca dentro das minhas partidas e o resultado é maior: 10,67%. No caso do campeão mundial Magnus Carlsen, o número é ainda mais alto: 12,79%! Lembrando que essas estatístcias não incluem finais de duas torres para cada lado, ou finais de torre e cavalo para cada lado. Estamos falando apenas de finais 'puros' de torre e peões.

Pois bem, muitos livros já foram escritos no assunto, inclusive um que trata dos finais teóricos e com menos peões, do grande e único Vasily Smyslov (Teoria de finales de torre, co-autoria de Levenfish). É importante conhecer os finais teóricos, mas os finais práticos são até mais importantes, pois tratam daquele tipo de posição que não há muito como padronizar. Existem livros excelentes que tratam de finais práticos, mas não só de torres, como o Endgame Virtuoso (também de autoria do Smyslov) e o Endgame Strategy (Mikhail Shereshevsky). 

Na minha opinião, a melhor maneira de estudar os finais é analisando os exemplos da prática (caso estejam comentados em um livro, ainda melhor). Por isso separei alguns finais de torres que joguei e que tiveram momentos interessantes, além de muitos erros e aprendizados! happy.png

Confesso que antes de fazer as análises do artigo, separei os exemplos sem nenhum 'tema' dos finais de torres em mente - minha proposta era mostrar alguns dos finais que aconteceram comigo na prática e como cada um deles tem suas particularidades. O que me surpreendeu é que o único tema que apareceu em todos os finais foi a atividade das peças!  É um erro muito típico que vejo, quando o rei ou a torre ficam em posições passivas nesse final, em troca de ganhar um peão, ou de alguma outra ideia superficial.

Vamos ao que interessa!  Para uma melhor absorção e aprendizado, sugiro que vejam os finais abaixo com muita calma, de preferência no tabuleiro wink.png

 

  • GM Neuris Delgado (2598) 0 x 1 KSM (2557), Porto Alegre 2013
    • É um final que já entra ganho para as pretas. Não tem muitas variações, mas mostra a força dos peões passados e alguns temas típicos de como forçar a coroação.
  • MI Peter Roberson (2403) 0,5 x 0,5 KSM (2534), Isle of Man 2017
    • Final bem complexo, quando entrou eu tinha quase certeza que estava ganho. É importante notar que eu e meu adversário estávamos no apuro de tempo desde que o final começou, até o lance 40. De qualquer maneira, achei difícil entender que os meus passados da ala da dama não são tão fortes - o contrajogo dele com o rei e o peão de 'f' são muito fortes, e no fim das contas quase perdi a partida, tive que achar alguns lances para me defender. É o primeiro exemplo que mostra a força da atividade do rei nesse tipo de final. A análise do lance 35 das pretas é muito original e instrutiva.
  • KSM (2550) 0,5 x 0,5 GM Salem AR Salem (2617), Abu Dhabi 2016
    • Outro final original - parecia já sem chances, mas depois de algumas imprecisões, a posição ficou perigosa para as pretas e não consegui colocar o maior número de problemas para o meu adversário. Outro exemplo onde era muito mais importante trazer o rei para o jogo (48.Rf3!) do que capturar o peão de imediato. As pretas ainda empatariam, mas teriam que acertar os próximos lances
  • GM Zhao Jun (2599) 0 x 1 KSM (2528), Moscou 2011
    • Deve ser o final que eu mais gosto, dentre todos que já joguei. A partir de uma posição igual, consegui criar pequenos problemas ao meu adversário, principalmente por causa da estrutura um pouco problemática dele na ala da dama. Depois de muitos lances precisos e um erro do meu adversário, consegui uma posição ganha, que quase escapou dos meus dedos, quando eu cometi um erro também. No fim deu certo! Outro exemplo importante de atividade dos reis - que era  o tema da defesa que garantia o empate para ele (46.Rxh3!)
  • KSM (2486) 0,5 x 0,5 GM Andrés Rodriguez (2521), Campinas 2010
    • Um final bem interessante, ganhei um peão logo no início, mas as pretas tem forte contrajogo, por causa da boa colocação de suas peças. A primeira mudança de rumo na partida é quando ele vai atrás do meu peão de h4 (46...Th3?!) ao invés de continuar com a iniciativa. Mesmo assim, era bem difícil de ganhar, e depois de muitos lances precisos, chegamos em dois momentos críticos - o lance 62 (com a opção de Tb3) e depois o lance 63, que é um erro grave de conceito, capturando o peão de h4 ao invés de manter a INICIATIVA e ATIVIDADE de todas as peças, principalmente do REI! Ainda assim, a vitória era super difícil e o método é instrutivo (dentro da análise do lance 63.Rf5!)
  • KSM (2490) 0,5 x 0,5 GM Azer Mirzoev (2565), Balagne 2010
    • Um final relativamente mais simples, com estruturas mais padronizadas, mas quando começam a surgir as complicações, as brancas tem que aplicar o tema de 'zugzwang' inúmeras vezes!  Bem interessante o recurso dele de 41...a6! que deixei passar. E depois o método da vitória com 56.Ta8+! e Rc7!, com análises bem precisas para controlar os peões passados (depois que as pretas entregam a torre pelo peão).
  • MF João Danilo Mandetta  (2297) 0,5 x 0,5 KSM (2551)
    • Um final aparentemente simples de dois peões contra um, mas cheio de detalhes também. O ponto central era levar o meu rei para apoiar o peão passado, ao invés de tentar buscar o peão branco de h2. Muito instrutivo o método de vitória com 65...c4! e depois a análise com 74...Tg4+! sacrificando um dos peões restantes para ganhar o final como uma composição artística. Era possível levar o rei para o lado certo por várias vezes, mas eu estava com a ideia fixa de ir para a ala do rei, e meu adversário encontrou uma defesa bem bonita no final para empatar.