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Maneiras alternativas de combater a Najdorf

Maneiras alternativas de combater a Najdorf

Trade09
01/08/2017, 17:44 3

Na foto: Michael Adams

A defesa siciliana é uma das armas mais temidas que as pretas podem utilizar contra 1.e4, por ter um caráter bem ambicioso. Dentro da siciliana, as opções são muitas, e a mais popular de todas é a variante Najdorf, que acontece depois dos lances 1.e4 c5 2.Cf3 d6 3.d4 cxd4 4.Cxd4 Cf6 5.Cc3 a6, chegando na seguinte posição: 

 Antes de falar sobre a parte técnica, vamos às estatísticas que eu tanto gosto grin.png

  • A variante Najdorf foi jogada pela primeira vez em 1926, em uma partida entre dois grandes jogadores da época: Frederick Yates (ING) x Saviely Tartakower (FRA)
  • O jogador com o maior número de 'Najdorfs' jogadas é o GM holandês Loek Van Wely, com 293 partidas oficiais(!), de acordo com a minha base.
  • Essa base possui 7.027.036 partidas, e desse total, 175.660 são sicilianas Najdorf, ou seja, 1 partida a cada 40. Algo bem incrível se você imaginar a quantidade de opções que ambos os lados tem até o lance 5.
  • As brancas já tentaram 32 lances diferentes (!) na posição após 5...a6. Dos lances 'aceitáveis', os mais originais são g4 (sacrificando o peão), a3 e h4( esses últimos estão na moda em 2017!)

Mas vamos lá, esse artigo não é pra falar disso. Uma noção que eu aprendi muito tempo atrás é que as brancas SEMPRE devem atacar para tentar ganhar da siciliana, e essa afirmação faz algum sentido, porque se pensarmos nos fatores estratégicos, as pretas já conseguiram uma conquista no terceiro lance ao trocar um peão 'não-central' da coluna 'c' por um peão central da coluna 'd'. Em troca disso, as brancas tem um desenvolvimento mais rápido e mais liberdade para suas peças. Por outro lado, qualquer afirmação que envolva a palavra SEMPRE quando se fala de xadrez é delicada, afinal das contas o que mais existe são exceções à regra. De qualquer maneira, eu acreditava que era necessário jogar as linhas de ataque - o ataque inglês, com 6.Be3, 7.f3, 8.Dd2 e 9.O-O-O tentando avançar os peões da ala do rei ou a temida variante 6.Bg5, para seguir com 7.f4, 8.Df3 e 9.O-O-O. Essas variantes são realmente críticas e perigosas, mas aos poucos comecei a descobrir que as brancas podem sim jogar com roque pequeno e tentar uma batalha posicional. Um dos grandes jogadores que mudaram essa minha visão é o super-GM inglês Michael Adams.

 

Pois bem, eu separei três variantes (6.g3, 6.a4 e 6.a3) que se encaixam na proposta do artigo. Conforme eu fiz no estudo sobre posições fechadas, as partidas não tem análise dentro, mas um pequeno resumo do que acontece.

  • 6.g3 - a variante do fianchetto é uma das opções sólidas e interessantes para o branco. Na primeira partida, entre o já citado GM Michael Adams e o GM David Navara (Rep. Tcheca), as brancas ganham um final de dama e bispo de cores opostas. É bem legal entender as vantagens que Adams foi adquirindo ao longo da partida:
    • Uma das ideias de 7.Cde2 é preparar o controle da casa de d5 (com 9.Cd5 e 10.Cec3);
    • 11.a4! é um lance bem temático pra incomodar a ala da dama - na maioria dos casos as pretas respondem b4, mas nesse caso não é possível por causa do cavalo em d5;
    • 16.b4! é bem importante por fixar o peão fraco em b5 e tirar o cavalo de c5;
    • Após as trocas entre os lances 17 e 24, o final de dama e bispo começa e a vantagem que as brancas tem é o peão fraco em b5, o peão branco de b4 que potencialmente vai virar passado e também o ataque ao peão de f7;
    • A troca de damas em d4 garante um final com boas chances e Adams converteu o ponto.
 
  • Michael Adams de novo, dessa vez contra o GM holandês Benjamin Bok:
    • As pretas trocaram em d5 rápido (10...Cxd5) sem permitir Cec3, mas depois de trazer a dama para d3, as brancas conseguem a mesma ideia com 14.Cc3;
    • 15.Bg5! é uma ideia muito temática na Najdorf, removendo o cavalo de f6 que controla bem a casa de d5, e abrindo caminho para o cavalo branco. Uma comparação instrutiva seria analisar 15.Cxd5 Cxd5 16.Dxd5, quando as pretas vão seguir com Be6 (depois de tirar a torre de b7) e as brancas nunca mais conseguem instalar uma peça em d5.
    • 21.b4! é um padrão parecido que já conhecemos na partida anterior, fixando o peão em b5
    • É importante reparar que as brancas sempre mantém o controle d5 com peças. Por exemplo, se 25.Tda1 dobrando na coluna 'd', as pretas podem capturar em d5 e forçar as brancas a colocar um peão nessa casa, o que não é bom porque as pretas conseguem jogar f5 nesse caso e não terão que se preocupar mais com o peão de d6 na coluna aberta. Pra completar, d5 é uma casa que o bispo pode invadir mais tarde.
    • A vantagem é muito grande depois de 28.Dxc4 bxc4, são muitos peões fracos das pretas e o peão branco de b4 é passado e forte.
 
  • 6.a4 - lance utilizado pelo próprio Adams em muitas ocasiões, mas principalmente pelo GM Gata Kamsky (nascido na Rússia e naturalizado nos Estados Unidos, ele já disputou o título mundial da FIDE em 1996 contra o grande campeão mundial Anatoly Karpov, além de ser um dos jogadores mais fortes da década de 90). 
    • Uma das ideias é esperar pra ver como as pretas vão definir (o jogador de Najdorf tem a flexibilidade de seguir com ...e6, ...e5, ou ...g6 como maneiras de desenvolvimento), e a partir daí traçar um plano;
    • Na partida em questão, o peruano e ídolo latino-americano, GM Julio Granda Zuniga escolheu jogar com ...g6, transpondo para uma espécie de siciliana dragão;
    • Após a troca em g4 (11.Bxg4), as brancas começam a conquistar um bloqueio importante na ala da dama, característico dessas variantes mais 'calmas' da siciliana. 12.Cd5! e 13.a5! são lances importantes;
    • 19.Te1! foi jogado provavelmente preparando 20.Te3 e 21.b4! com a ideia de expandir a ala da dama aos poucos, que está bem estável, graças ao peão de a5;
    • No lance 25, a posição branca é bem agradável, mas a manobra decisiva começa trazendo o cavalo de volta até d3 para desalojar a forte torre em e5;
 
  • A partida entre o armênio Sergei Movsesian e o turco Mustafa Yilmaz (ambos GMs) também é instrutiva:
    • As pretas jogam o lance mais comum contra 6.a4 - 6...e5, contra o qual a tirada de cavalo inovadora é 7.Cf3! justamente para desenvolver o bispo em c4 mais adiante e poder colocá-lo em a2 ou b3 quando for atacado;
    • 8.Bg5 para eliminar o cavalo de f6 é temático, assim como na partida Adams-Bok acima;
    • Após as trocas no lance 14, as pretas não tem uma posição inferior, mas aos poucos as brancas vão construindo uma vantagem em cima do peão de d6, sempre cuidando da expansão das pretas na ala da dama (faz muita diferença o cavalo branco não estar mais em c3, senão a coluna 'c' é boa para as pretas);
    • 25.Ce1! é uma manobra bem importante, típica para melhorar a única peça má colocada em direção a e3, que é uma excelente casa. As pretas se viram forçadas a se mexer com ...b5, e depois de instalar um cavalo em c4, as brancas começam a incomodar muito a posição delicada do rei preto, e acabam ganhando material decisivo no lance 44.
 
  
  • 6.a3 - Nada como fechar o artigo com uma partida do atual campeão mundial Magnus Carlsen contra o GM polonês Radoslaw Wojtaszek:
    • Esse lance foi introduzido na prática pelo iugoslavo Bozidar Djurasevic na década de 50, que lhe rendeu uma vitória contra o grande Svetozar Gligoric;
    • A ideia é parecida com o 6.a4, com a diferença que as brancas ainda podem jogar para atacar (caso as pretas escolham uma formação mais passiva, com ...e6 ou ...g6, pois a4 é muito mais comprometedor);
    • 7.Cf5! é um lance desafiador, que normalmente não é bom por causa de 7...d5, mas a ideia é jogar esse 11.Dg4! defendendo o cavalo. Caso as pretas joguem 11...g6, 12.Dg3! Cc6 13.Cxd4!;
    • Mais uma vez chegamos em uma posição de peças pesadas e bispos de cores opostas (na Najdorf quase sempre o branco vai ter o bispo de casas brancas e as pretas vão ter o bispo de casas pretas);
    • As brancas tem uma pequena vantagem, mas tem mais facilidade para jogar e acabam ganhando o importante peão de e5. É verdade que as brancas ganharam a partida na força de jogo, mas acho que a posição depois de 11...Bxf5 12.Dxf5 é um pouco mais confortável para o branco.
 
 
Observações/conclusões:
  • As pretas tem muitas respostas diferentes contra os lances sugeridos, afinal das contas, não são lances 'forçantes';
  • O estudo de partidas a partir de jogadores-referência é muito instrutivo, pois é mais fácil encontrar padrões e ideias similares;
  • Nada disso quer dizer que as linhas de ataque são inferiores a essa, apenas quero mostrar com o artigo que existem outras maneiras de combater a Najdorf, com ideias mais posicionais, sem precisar decorar muitas variantes;
  • Existem muitas vitórias pretas que não foram colocadas aqui, pois a ideia é mostrar o lado bom jogando de brancas. É o primeiro passo para simpatizar com uma variante, e a partir disso, aprofundar um possível estudo;
    • é isso! :-D

 

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