Meu primeiro título brasileiro!

Meu primeiro título brasileiro!

GMKrikor
GM GMKrikor
26/06/2017, 10:23 |
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foto: Kayssa Alves

25 de fevereiro de 2013 era a data início da final do 79º Campeonato Brasileiro absoluto de xadrez, na pequena cidade de Montenegro, no Rio Grande do Sul.

Éramos 12 jogadores para disputar o título máximo do xadrez nacional - eu era o número 1 do torneio, com 2546, seguido pelos MIs Evandro Barbosa (hoje GM), Roberto Molina, Yago Santiago e Máximo Iack Macedo, todos na faixa dos 2400. No papel eu era o favorito por uma grande margem, mas eu sabia que não ia ser fácil. Além dos jogadores citados, era importante ficar de olho nos jovens Mateus Nakajo (18 anos) e Vitor Carneiro (16 anos).

 

O sorteio foi realizado no congresso técnico, e eu começaria enfrentando o número 2 do torneio logo de cara!

Abaixo vou descrever como me preparei e o que aconteceu resumidamente em cada partida.

1ª rodada: KSM x MI Evandro Barbosa (2422) - brancas com o Evandro era uma partida desafiadora para começar o torneio - a preparação de aberturas dele sempre foi de alto nível, e sem tempo para revisar minhas análises, acabei sendo fiel ao meu 1.e4 e fui pego em uma variante do ataque inglês da Taimanov que eu não conhecia. Tentei uma ideia nova, mas sem me sentir muito confiante, e com o meu adversário jogando rápido e com uma posição confortável, surgiu uma repetição de lances que ambos concordamos e o empate aconteceu, no lance 22.

Classificação parcial - 2ª rd: MI Yago Santiago (2405) x KSM - O Yago é um jogador perigoso e nosso histórico até hoje (em 10 partidas) viu apenas um empate! Ele estava jogando só 1.e4 na época e eu lembro que eu estava em uma fase de transição, tentando jogar mais 1...e5. Pelo estilo bem criativo e agressivo dele, descartei a siciliana e acabei escolhendo a variante Averbakh dentro de 1.e4 e5, considerada sólida, mas passiva. Ele jogou uma linha boa, mas até que consegui uma posição aceitável. No momento crítico, me apurei de tempo, não reagi bem à iniciativa dele, e fui devidamente punido, perdendo a partida. O primeiro título brasileiro parecia distante depois de começar o torneio com 0,5/2. 

Logo em seguida, lembro de ter feito esse post como desafio até o fim do torneio:

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Classificação parcial - 3ª rd: KSM x MF Flávio Olivência (2211) - Era hora de começar a recuperação! Ainda faltavam nove rodadas, e eu tive consciência que só dependia de mim dar a volta por cima. O único que eu podia fazer era tentar ganhar a próxima partida, e depois pensar na próxima, um jogo de cada vez.

De brancas contra o MF gaúcho Flávio Olivência, lembro de ter preparado bastante porque ele só jogava a siciliana Lowenthal, e nesse caso fazia sentido aprofundar para conseguir uma boa posição. Encaixei minha preparação e consegui um final melhor, pra falar a verdade, com pequena vantagem. Mas depois de algumas imprecisões dele, consegui concluir. A fase boa começou, e veio a primeira vitória!

Classificação parcial - 4ª rd: Luismar Brito (2292) x KSM - Era hora de voltar para a velha e boa siciliana. O MF paraibano Luismar Brito costumava jogar esquemas com Cxc6 na siciliana Taimanov ou Paulsen, então escolhi uma ordem para jogar Cf6 e Cc6 rápido, provocando essa troca, e preparar um d5 rápido, sem perder o tempo de a6. Com 11.cxd5, ele me deixa em uma posição confortável e acabei criando forte pressão na coluna 'c'(por causa do enfraquecimento de 10.b3, que é temático, mas não combina com a troca em d5). Outra importante vitória.

Classificação parcial - 5ª rd: KSM x Felipe Menna Barreto (2285) - contra o gaúcho Felipe Menna Barreto, preparei bem menos porque ele é do tipo que joga muitas variantes diferentes, e tenta sempre levar para uma posição menos teórica de meio-jogo. Acho que a principal arma dele contra 1.e4 era 1...e5, lembro de ter revisado um pouco minhas análises na variante com 6.d3 que eu vinha utilizando na época, joguei outra boa partida, e veio o terceiro resultado positivo! Faltavam apenas 6 vitórias para conseguir o meu desafio do facebook! happy.png

Classificação parcial - 6ª rd: Klaus Gotz (2081) x KSM - o jovem Klaus Gotz de apenas 16 anos estreava nas finais de brasileiro, e eu não conhecia bem o seu jogo. Sabia que ele viria com o peão dama e escolhi colocar em prática a defesa Bogoíndia, que vejo como uma opção consistente para tentar um meio-jogo posicional e desequilibrado. Joguei a variante com 4...a5, seguindo com 5...d6, 6...Cbd7 e 7...e5 de imediato. Acredito que tenho uma posição preferível já depois de 12...a4! (o peão não pode ser capturado) e minha ameaça é Cb6 incomodando o peão 'fraco' em c4. Meu adversário sacrificou um peão em seguida, mas consegui converter sem problemas. Com essa vitória, fiquei apenas meio ponto atrás do líder!

Classificação parcial - 7ª rd: KSM x MI Roberto Molina (2414) - De brancas contra o MI Roberto Molina, revisei um pouco minhas análises na Caro-Kann do avanço, variante clássica com e5, Cf3 e Be2. Revisei é modo de dizer, porque as pretas tem uma infinidade de opções, então a melhor postura nesse caso é entrar confiante nos próprio conhecimento e estudos prévios. Ele jogou uma ideia interessante e arriscada de Ch6, provocando Bxh6, lance que acabei fazendo. Consegui vantagem, mas a posição era bagunçada. Lembro das análises na época, que ele tinha bastante contrajogo com 23...Td8!, mesmo com o peão a menos. Ao invés disso, ele recuperou o material em a5, e consegui uma iniciativa decisiva na ala do rei. Talvez a vitória mais importante na reta final contra um adversário bem duro!

Classificação parcial - 8ª rd: Vitor Carneiro (2089) x KSM - Ser o número 11 de rating não impediu Vitor Carneiro, de apenas 16 anos na época, largar como líder do brasileiro, e nesse momento ele era o 3º colocado com 5/7! Eu conhecia um pouco do jogo dele, de jogar variantes menos teóricas e com um estilo criativo. Preparei algo bem sólido, a inglesa simétrica com g6-e6-Cge7-d5, e consegui uma posição consistente depois de 14...Dxd5. Nesse momento, ele fez um erro (15.Db3?) que me deu a iniciativa, e consegui concluir mais uma boa partida, finalmente assumindo a liderança isolada pela primeira vez!

Classificação parcial - 9ª rd: KSM x MI Máximo Iack Macedo (2408) - Nesse momento, liderando sozinho o torneio, e faltando apenas três rodadas, era quando eu tinha medo de me desestabilizar. O torneio 'recuperação' sem responsabilidade nenhuma era muito mais fácil do que sentir uma eventual pressão de ser campeão brasileiro pela primeira vez! Lembro que não preparei muito esse dia, o Iack é um jogador que busca variantes diferentes, e imaginei que ele ia inventar algo diferente (dentro de 1...e6 ou 1...e5, suas principais armas nas partidas mais importantes).

Ele jogou a francesa, variante Rubinstein, mas com um lance que acredito ser duvidoso (4...Cf6 direto). O momento crítico foi no meu lance 12: eu tinha a opção de um final melhor e seguro com 12.Cxd6 Dxd6 13.dxe5 Cxe5 14.Bc2 ou 12.f4!? que era bem mais arriscado. A variante que pensei era 12...exd4! 13.f5 Bxf5 14.Txf5 Bxh2+ 15.Rxh2 Dxf5 16.Cg3, e com dois bispos pela torre (mesmo com 3p a menos), eu achei que teria vantagem, mas a posição é bem complexa, e o computador prefere as pretas. Na hora não me aguentei e joguei o lance com a maior dose de emoção, talvez uma ansiedade de querer definir logo a partida (que poderia ter dado bem errado!). Para minha felicidade, ele jogou 12...Bf5?, que era uma das 'armadilhas' do 12.f4. Depois de 13.Cf6+!, as brancas estão ganhas, e ele abandonou no lance 15. Com essa, eram 7 vitórias em seguida a partir da 3ª rodada!

Eu jamais esperava ganhar em 15 lances de um adversário como o Iack, que inclusive tinha ganhado bem de mim nossa última partida, em 2012. Faltavam apenas duas rodadas, e eu mantinha a liderança de meio ponto contra o meu adversário da 10ª rodada e sensação do torneio, o paulista Mateus Nakajo, de apenas 18 anos. E foi nessa próxima rodada que as maiores emoções aconteceram.

Classificação parcial - 10ª rd: KSM x Mateus Nakajo (2255) - O Mateus é um jogador que eu já conhecia faz tempo, e admirava muito, principalmente pela sua ambição e postura diferenciadas no tabuleiro. Além de ele estar fazendo um grande torneio, o rating dele não me enganava, eu sabia que ele era um adversário muito perigoso. Ele tinha duas opções de repertório contra o meu 1.e4 - a siciliana 'híbrida', ou a defesa Petroff. Senti que ele não estava feliz com o vice-campeonato e imaginei que jogaria a siciliana. Eu estava pronto para a luta - aprofundei meu estudo de muitas horas nesse dia no ataque inglês da siciliana, e fui para essa partida decisiva, naquele 5 de março. Eu tinha as peças brancas, muito bem preparado, meio ponto a mais no torneio e quase 300 pontos de vantagem de rating, mas na hora da decisão no tabuleiro, eu sabia que nada disso importava - eu tinha um adversário que queria ganhar de mim e eu tinha que provar que eu queria esse título.

Joguei 1.e4 e veio c5. Essas análises vocês tem que ver no tabuleiro:

Classificação parcial - 11ª rd: Andrey Neves (2159) x KSM - Chegou a última rodada, e com 8/10, eu mantive meio ponto de vantagem na classificação, mas não era só do Mateus - O Yago ganhou as últimas 4 partidas e também estava perto, com 7,5. Ele enfrentava o MI Molina, o Mateus tinha pela frente o Iack, e eu o amazonense Andrey Neves. Apenas uma vitória minha garantia o título. Caso o Yago ganhasse a partida dele e eu empatasse, ele ganhava de mim no confronto direto.

Começou a última rodada, ainda com tudo em aberto. O Yago perdeu do Molina e com isso, eu podia empatar, já que eu tinha o melhor critério de desempate contra o Mateus, caso ele ganhasse. Ofereci empate no lance 16, que foi aceito pelo meu adversário... Uma emoção grande - o primeiro título nacional a gente nunca esquece! :-)