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A Dama das Asneiras Defronta as Táticas

A Dama das Asneiras Defronta as Táticas

No princípio, as tácticas eram uma perda de tempo.

Elas eram algo para fazer quando me sentia impaciente, à espera na fileira ou enquanto a água estava a aquecer. Eu nunca tinha jogado xadrez antes, mas eu tinha visto o meu namorado jogar, e quando ele reparou no meu interesse, ele explicou como funcionava: o longo, alcance lancetado dos bispos; o movimento de rotação dos cavalos; o implacável progresso dos peões. Ele mostrou-me como os campos de força em volta dos reis os mantinha afastados um do outro, as idiossincrasias do en passant, e de como promover um peão para dama.

Eu tentei algumas táticas. Estas pediam tão pouco de mim, só um minuto ou dois. Assim eu descarreguei a applicação.

A app fixou o meu rating inicial em 1500. Sem saber como, eu baixei centenas de pontos. Mas já estava viciada.

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Eu jogava enquanto estava à espera em fila e de pé na cozinha, mas também nas principais horas do dia, quando eu devia estar a trabalhar. Quando eu jogava, não tinha noção do passar do tempo. A sensação de acertar uma era uma sensação de satisfação, e nunca era suficiente para mim; errar uma era um estímulo para fazer mais uma. 

Eu tive de começar a deixar o meu telemóvel fora do quarto quando ia dormir, porque doutra forma eu acordava no meio da noite, automaticamente abria a app, e jogava durante horas, somente semi-consciente do que estava a fazer. Eu sentava-me no parque de estacionamento, bifurcando peças ou sepultando o meu rei. Eu fazia táticas na manhã de Natal enquanto a minha família abria presentes. "Nós estávamos preocupados contigo," diziam-me os meus pais. "Isto parece ser um vício."

É um vício," respondi eu.

Eu tinha prazos para entregar coisas. Eu publiquei um livro. Eu mudei de cidades. As semanas desapareciam umas nas outras. As táticas traziam-me de volta em foco. Pelo menos uma vez por dia, lá estava eu a calcular linhas com um foco monomaníaco.

À noite, eu sonhava que era um cavalo, a saltar em redor do tabuleiro. Sempre o cavalo, lamentava-me eu quando acordava. Nunca a dama!

Eu gastava uma hora a pensar sobre uma única tática. Eu perdia cem pontos num dia, ou mais, depois ganhava-os de volta. Eventualmente, eu ganhava mais do que perdia. Eu comecei a reconhecer os padrões. Os cálculos tornaram-se mais fáceis. Os movimentos das peças fluíam uns com os outros. Eu comecei a ver o tabuleiro como áreas de energia, linhas de tensão. Quando Junho chegou, oito meses depois de eu ter descarregado a app, o meu rating atingiu 2000.

Ainda não conseguia configurar com segurança o tabuleiro para uma partida.

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Logo de início eu sabia, é claro, que as táticas eram supostas ser uma ferramenta para assistir o teu jogo em partidas reais. Estas não eram suposto ser as partidas mesmo. Por meses, eu ignorei isso. Eu jogava algumas partidas - com resultados terríveis. Eu oferecia peões sem razão, dependurava os meus cavalos, e digo aqui, toma a minha dama. Estava sempre a perder.

Durante muito tempo, eu nunca vi uma tática numa partida. Eu sabia que estavam lá, mas os padrões que eu conseguia ver fácilmente no treinador de táticas nunca emergiam quando eu estava a jogar uma partida. Quando eu olhava para uma situação em isolamento, eu conseguia entender como as peças trabalhavam juntas. Eu sabia como tecer uma rede de mate, como me guardar contra uma asneira. Ao jogar uma partida, no entanto, o tabuleiro era simplesmente uma confusão de peças. Eu agachava-me por detrás da minha pequena linha de peões e depois eventualmente, inevitavelmente, sucumbia a um ataque.

Parte do problema era óbvio. Eu tinha de aprender a lidar com a pressão do tempo.

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Depois de alcançar 2000 na app o verão passado, eu decidi fazer só táticas que tinham um relógio. No início, foi um desastre -- não muito diferente do que jogar partidas. As táticas que eu tinha feito meio a dormir eram subitamente impenetráveis para mim quando havia um elemento de tempo. Se eu não conseguisse encontrar a resposta imediatamente, entrava em pânico. E quando eu pensava que via o lance imediatamente, eu estava normalmente errada. Eu conseguia vencer só quando eu levava o meu tempo, o que normalmente significava que eu conseguia um ponto ou dois. (Quanto mais lenta a resolução, mais baixa a pontuação.) 

Quando eu perdia -- e eu perdia a maioria no princípio -- oito ou nove pontos caíam do meu rating. Isso fazia-me mais agressiva e determinada de os recuperar o mais cedo possível, o que, é claro, só me fazia perder mais. Era uma passo para a frente, nove passos para trás.

O meu rating caiu para cerca de 700. Levou-me semanas para ultrapassar os mil, e um par de meses antes de eu conseguisse ficar acima de 1200. Eu sabia que tinha de mudar a minha abordagem. 

Eu tinha de ser deliberada e metódica. Primeiro, eu tinha de ver tudo sobre a posição. Eu faria um inventário do meu material e o do meu oponente. Eu olhava para a segurança do rei, procurava por sinais de quanto tempo tinha, e se a tática poderia ser uma de ataque de mate, ou se eu deveria procurar por um mate afogado.

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Eu tinha de ver que peças estão a guardar o quê, se alguma coisa estava solta ou dependurada. Eu procurava por ataques duplos ou defensores que seria possível arrumar para o lado. Eu testava para armadilhas. Eu tentei ver os lances forçados primeiro, e depois aqueles de antecipação. Cada lance mudaria o equilíbrio e alterava a tensão na posição. Eu precisava de ter a sequência correta. Finalmente, eu tinha de seguir a sequência completamente até ao fim. Pode parecer uma lista fácil e óbvia, mas à medida que os segundos passavam, eu queria saltar um passo (ou três) e fazer um lance imediatamente.

Mas lentamente, eu aprendi paciência. O meu rating estabilizou e depois começou a subir gradualmente (embora eu ainda esteja sujeita a oscilações de 100-pontos num só dia), rastejando para o meu objetivo de 2000. Mais surpreendente, eu comecei a ver padrões e táticas quando jogava partidas -- e depois eu comecei a jogar num estilo que fazia as táticas mais prováveis, trocando a minha abertura de Brancas da Inglesa (que eu jogava principalmente porque é fácil de memorizar!) para a mais dinâmica e4.

Eu procurei por cada oportunidade de atacar. As partidas tornaram-se muito mais interessantes. Ainda sou uma principiante, e sou muito, muito melhor em táticas do que eu sou no xadrez, especialmente com um controle de tempo baixo. (Eu não consigo jogar blitz ou bullet para salvar a minha vida.) Eu tenho uma pequena esperança, no entanto, que um dia isso vai mudar. 

Dois meses atrás, eu reiniciei o meu rating de táticas de modo que daqui para a frente, eu posso observar a porcentagem de problemas que eu acerto. Para o meu alívio, isso também limpou o número de horas que tinha gasto até agora. Eu não me consigo lembrar de quantas eram. Era tão embaraçoso que, num ato de auto-protecção psicológica, a minha memória apagou-o. Eu podia ter escrito um livro nessa quantidade de tempo. Em vez disso, eu gastei-o a saquear torres.

E ainda assim, eu faço táticas todos os dias. Eu nunca me arrependerei de um bom sacrifício.


nullLouisa Thomas é uma escritora Americana, autora de dois livros (incluindo Louisa: The Extraordinary Life of Mrs. Adams), uma colaboradora regular para o NewYorker.com, antiga escritora e editora no Grantland.com, e "obcecada" com ténis e xadrez. Podes segui-la no Twitter. 

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