As Minhas Revistas Americanas de Xadrez Favoritas: Parte 2
O IM Silman revê revistas historicamente interessantes.

As Minhas Revistas Americanas de Xadrez Favoritas: Parte 2

Silman
IM Silman
12/01/2018, 00:00 |
17 | Diversos

'CHESS LIFE'

Chess Life, é claro, tem tido os seus altos e baixos; os fins da década de 1970 trouxeram um corte no número de páginas quando a diminuição de subscrições devido à ausência de Fischer forçou austeridade, o que incluiu despedir muitos colunistas. Nunca mais voltou de perto aos seus dias de glória.

No entanto, nós estamos a olhar para os seus melhores anos—1961 até à fusão (Chess Life and Review) nos fins de 1969. Para mostrar o que Chess Life tinha para oferecer, eu agarrei numa pilha ao acaso e acabei com 1962. Muito tempo já passou e eu estava excitado em ver o que estava escondido nestes volumes de 1962.

Antes de eu continuar, não te esqueças que as citações que se seguem são os observações dos escritores da Chess Life.

Chess Life magazine

A capa da Chess Life moderna.

DIVERSÃO INSTANTÂNEA

Eu não tive de me empenhar para encontrar montes de coisas divertidas: TORNEIOS INTERNACIONAIS: Partidas de eventos recentes pelo Mestre Leonard Barden. A enorme coluna de Barden (na página cinco e seis) oferece Desempenho Consistente de Técnico de Elite, Onde é Que as Pretas Erraram, e Circo dos Grande Mestres. Embora ele não fosse o melhor analista do mundo, é óbvio que Barden se esforçou por oferecer algo de interessante e especial em cada uma das suas colunas.

Eu estive tentado a partilhar 'Técnico de Elite' convosco, mas 'Circo dos Grande Mestres' é irresistível!

Circo dos Grande Mestres

Barden: “Ocasionalmente grande mestres experientes comportam-se como cretinos, desperdiçando vitórias e revelando fraquezas humanas comuns. Como na partida abaixo, dificuldades de tempo é a explicação habitual, mas isto não precisa de nos impedir de desfrutar da visão duma demonstração de circo."

“Para a mortificação de Smyslov, os outros mestres rodearam imediatamente o tabuleiro-um quando a partida acabou e mostraram-lhe que ele tinha uma vitória clara na posição final."

EXERCÍCIO 1

Barden desafiou os leitores a achar a vitória das Pretas. És suficientemente corajoso(a) para aceitar o seu desafio?

RESHEVSKY MOSTRA QUEM É O PATRAO

COMO AS PARTIDAS DE XADREZ SÃO GANHAS é a coluna do Grande Mestre Samuel Reshevsky.

A sua coluna é habitualmente sobre xadrez posicional. Uma vez que a maioria dos jogadores adoram olhar para ataques ou táticas, partidas como esta são ouro puro uma vez que, se tu não tens ou tens um conhecimento estratégico pobre, tu não largas a revista. Aqui está uma partida da edição de Janeiro intitulada "Sem Contra-Jogo."

Reshevsky: “As seguintes variantes da Defesa Índia de Rei ainda são de grande interesse hoje em dia. Com 8.Be3 o meu plano era de induzir os meus adversários a ganhar um tempo à custa de enfraquecer levemente a sua ala de rei. Eu desisti do meu bispo de rei por um cavalo, obtendo um controle temporário da coluna de bispo de rei.

“Apercebendo-se de que o seu bispo de dama tem mobilidade limitada, o meu oponente trocou-o pelo meu cavalo de rei. Eu neutralizei a acção de Najdorf na ala de rei, reduzindo o seu jogo a completa passividade. O problema principal das Pretas era o seu bispo de rei imobilizado. Ao lance 21 eu comecei acção na ala de dama. A vantagem do peão de bispo de dama era uma ameaça séria.

“Eu consegui levar o meu peão para c6, apoiado pelo peão de cavalo. Najiorf tentou tudo para obter contra-jogo, mas sem resultado. Ele foi finalmente forçado a perder uma peça pelo peão avançado. Não tendo contra-jogo pela peça, ele abandonou."

Se tu gostas de dominar uma partida enquanto evitas quase todo o risco, então tu deves estudar as partidas de Reshevsky.


E MAIS

Isso já é bastante, mas há mais, muito mais: TÁTICAS DE XADREZ PARA PRINCIPIANTES pelo Dr. Erich W. Marchand, e uma coluna de John W. Collins (um amigo íntimo de Fischer, Lombardy, os irmãos Byrne, etc.), PARTIDAS POR MEMBROS DA USCF. Depois uma "quebra", mostrando vários resultados e tabelas de torneios. Eu notei que Robert Byrne venceu o Campeonato Aberto de Rápidas dos EUA com um avassalador 8-0. Estranhamente, eu joguei com três dos nove combatentes (Bisguier, Gross, e Loftsson) anos depois (eu teria tido oito anos de idade em 1962!).


O MISTERIOSO DIMITRIJE BJELICA

Depois disso o bem conhecido (e super-prolífico) escritor de xadrez Dimitrij Bjelica (um Sérvio que nasceu em 1935) escreveu um artigo sobre Lisa Lane (nascida em 1938) e Gisela Gresser (nascida em 1906). Lisa era uma amiga de Fischer, mas isso não impediu Fischer de rebaixar jogadoras femininas de xadrez. Ele disse, "Elas são todas peixe. Lisa, pode-se dizer, é a melhor do peixe Americano." Gisela Gresser dominou o xadrez feminino por muitos anos (vencendo nove títulos nacionais de xadrez).

Aqui está um pouco do seu artigo: "A primeira visita de Lisa Lane à Jugoslávia foi uma verdadeira sensação. Quando ela chegou ao Aeroporto de Belgrado nós pensámos que ela era uma estrela de filmes de Hollywood. Toda a gente a reconheceu das fotos dos jornais. As colunas de xadrez Jugoslavas falavam frequentemente duma jovem, e bela senhora que desejava tornar-se um grande mestre."

“Quando ela visitou Sarajevo, mais de quinhentas pessoas vieram ao clube de xadrez para a escutar sendo entrevistada. 'Todos têm um milhão de pretextos para ela não realizar as suas ambições.' disse Lisa."

Infelizmente, ela não realizou as suas ambições. No entanto, eu acho que a sua notoriedade convenceu muitas senhoras a sonhar com a lua. E, como nós agora vemos, existem muitas, muitas senhoras que de facto ultrapassaram a lua, ganhando títulos de IM e GM.

Afastando-me do artigo de Bjelica, eu tenho de citar o que Eliot Hearst e John Knott escreveram sobre a afirmações de Bjelica sobre o seu novo recorde de 56 partidas de xadrez às cegas em 25 de Maio de 1997 (eu devo acrescentar que estes dois homens escreveram um livro fantástico intitulado "Xadrez às Cegas."):

“A exibição foi jogada na Congresso Internacional de Enfermeiras e os seus oponentes foram todos enfermeiras. A partida que ele perdeu foi para a sua mãe, numa altura em que ela tinha 80 anos de idade. Bjelica relata que a exibição durou sete horas e de que em várias partidas a sua versão de xadrez, Xadrez Para a Paz, foi utilizada, em que os bispos colocados inicialmente em f1 e f8 foram substituídos por peões. Ele disse-nos que nenhum dos seus oponentes tinha um rating de xadrez mas que 'algumas delas eram muito boas.' Revelador e surpreendente, ele admitiu que tinha podido tomar notas daquilo que quisesse durante a exibição."

Em qualquer caso, o homem é bastante espantoso, tendo escrito 80 livros e feito 55 vídeos. Os seus artigos valem sempre a pena ler.

chess life 1962

Uma edição da Chess Life de Novembro de 1962. Imagem via eBay. 


POSSO LER A PALMA DA TUA MÃO?

A revista do fim de Janeiro de 1962 tem AQUI E ALI, que fala de xadrez sobre todo o tipo de coisas. Nesta é discutida a famosa foto de Bobby Fischer lendo a mão de Mikhail Tal (sim, ele estava interessado em quiromancia), e quando Fischer olhou para a mão de Tal, Fischer disse, "O próximo campeão será...[um momento de silencio passou] Bobby Fischer!" Após o qual todos na sala desataram a rir.

Tudo isto foi da revista de Janeiro de 1962. Olhando para outros volumes de 1962 nós vemos LARRY EVANS SOBRE XADREZ (edição de Fevereiro) onde ele explica os prós e contras da Caro-Kann. XADREZ UNIVERSITÁRIO por Peter Barlow. Todas as partidas do Torneio Lessing J. Rosenwald (Nova Iorque 1961-62, Campeonato de Xadrez dos EUA).

WILLIAM LOMBARDY TORNA-SE POÉTICO

PETISCOS DE JOGO DE MESTRE pelo Grande Mestre William Lombardy.

O Robin Hood no Xadrez?

“Na floresta de Sherwood é difícil de separar as matas das àrvores, e nunca ninguém sabe quem pode estar escondido por detrás de um daqueles carvalhos gigantes. Um nobre abastado, viajando pelo solitário caminho da floresta, pode subitamente ser confrontado pelo João Pequeno imergindo das sombras. Com a sua poderosa entrada ele faz cumprir o seu ideal—de roubar aos ricos para dar aos pobres.

"Com o mesmo propósito foi a Batalha de Hastings, o Torneio de Natal de 1961, disputado. Contra os distintos invasores estrangeiros os Ingleses ofereceram a sua oposição mais forte. O célebre Penrose, os obstinados defensores Barden e Wade, e o pouco-conhecido John Littlewood, estavam todos à espreita nos seus tabuleiros pacientemente à espera que os invasores fizessem o mais pequeno erro.

“Nenhum destes leais Ingleses cumpriu a sua missão mais fielmente do que John Littlewood. Não só empatou ele com aquele que tinha sido um pretendente ao título mundial, Salo Flohr, mas ele conquistou os escudos de dois Grande Mestres—Gligoric e Bisguier. Isto deve ser considerado uma façanha esplêndida, embora a sua decepcionante pontuação 4-5 não lhe tenha dado um lugar entre os lideres.

“A questão permanece se Littlewood não foi tomado suficientemente a sério, ou se ele pode ser na verdade um candidato ao xadrez de campeonato. Se os jogadores em Hastings tivessem visto a seguinte partida, eles teriam provavelmente ter-se inclinado para a última. A partida, jogada no Torneio Clare Benedict de Equipas, em Abril de 1961, revela um estilo vigoroso de ataque combinado com um bom sentido de posicionamento."

Eu suspeito que se tu o leres uma segunda vez que o teu cérebro pode derreter-se. De qualquer modo, aqui está a partida que, merecidamente, impressionou Lombardy.



Eu de facto disse que as Brancas cometeram um erro com 39.Da4. No seguinte exercício, vê por favor se consegues achar o lance certo das Pretas.

EXERCÍCIO 2

Isto é de facto difícil, mas se tu achares os primeiros dois lances podes sentir-te orgulhoso.

O falecido William Lombardy era na verdade um personagem, e embora eu estivesse na Costa Oeste [dos EUA] e ele na de Leste, nós tivemos alguns encontros aqui e ali. Quando o seu livro, Understanding Chess: My System, My Games, My Life, foi publicado, ele enviou-me uma cópia com a seguinte inscrição: "Caro Jeremy, As tuas contribuições literárias ao xadrez são grandiosas e dignas de Grande Mestre. E eu não digo isso a todos os oleosos!" Tipicamente Lombardy!


BOTVINNIK, TAL, E FISCHER

E, à medida que os volumes de 1962 continuam, mais e mais maravilhas aparecem. Uma é a celebração de quando Fischer venceu invicto o Interzonal com a pontuação, espantosa, de 17,5-4,5. Botvinnik admitiu que ele gosta de beber suco de oxicoco quando ele sente que está a levar água ao seu moinho. No torneio de equipas de Leipzig, no entanto, ele converteu-se ao café negro. Harry Golombek, o mestre internacional Inglês que tinha sido o juiz nos últimos cinco confrontos de Botvinik ao título, contou a Barden que durante o segundo confronto com Tal, Botvinik bebia regularmente o seu café após a sessão ter estado em andamento por três horas. Weaver Adams discutiu o completamente louco Gambito de Adams, e o IM Raymond Weinstein partilhou a sua análise sobre a Defesa Índia de Rei.

E já chega. Nós ainda nem sequer tínhamos chegado à edição de Abril! Quando tu também reparas que todas as edições estão repletas com fotos maravilhosas tu sabes que estás a receber muito mais do que pagaste. Okay, okay, tu queres um pouco mais? Então aqui estão Tal e Fischer no torneio Bled sendo entrevistados por D. Andric:

TAL: “Não existe hoje um campeão de xadrez absoluto, mas pelo menos dez jogadores de força aproximadamente igual: Botvinnik, todos os quatro participantes Russos no Bled (Tal ele próprio, Keres, Petrosian, e Geller), Korchnoi, Smyslov, Spassky, Fischer, Reshevsky, e Gligoric. Qualquer um deles é capaz de vencer qualquer um dos torneios mais fortes em qualquer lugar."

D. ANDRIC: Alguns dos outros participantes do torneio persuadiram Fischer a cantar no clube noturno em Bled uma noite, com a esperança de que se pudessem divertir à sua custa. Eles no entanto foram silenciados em admiração, quando ele cantou uma série de canções de 'rock and roll' atraentemente e bem.

FISCHER: “O meu principal talento não está no xadrez mas na musica: Eu escrevi isso algures no meu diário. O grande mestre Smyslov que podia ser um cantor de opera em qualquer parte do mundo reconheceu que eu tinha uma voz apropriada, e que eu também tenho ritmo."

Na próxima semana eu terminarei esta série de três-partes com uma olhada para a Chess Review.


Gostarias de receber mais conteúdo de xadrez em Português? Segue estes canais!

null  /chesscom.pt null  /chesscom_pt null  /chesscomPT null  /chesscom_xadrez
Mais de IM Silman
Frank Marshall, Parte 4: St. Petersburgo 1914 e Os Deuses Do Xadrez

Frank Marshall, Parte 4: St. Petersburgo 1914 e Os Deuses Do Xadrez

Frank Marshall, Parte 3: Capablanca Entra em Palco

Frank Marshall, Parte 3: Capablanca Entra em Palco