As Minhas Revistas Americanas de Xadrez Favoritas: Parte 3
O IM Silman conclui a sua série sobre revistas de xadrez.

As Minhas Revistas Americanas de Xadrez Favoritas: Parte 3

IM Silman
19/01/2018, 15:33 |
12 | Outros

'CHESS REVIEW'

A Chess Review (de 1933 até aos fins de 1969) foi sem dúvida a melhor revista Americana de xadrez até, em 1961, ter deparado com uma 'Chess Life' notavelmente melhorada. Ambas tentaram superar-se uma a outra (o interesse explodiu devido ao advento de Tal e, é claro, Bobby Fischer), embora fossem ambas excelentes. Al Horowitz, que esteve com Chess Review desde o início, trabalhou dia e noite durante décadas até se aposentar. Isso levou à fusão entre ambas as revistas, e Chess Life and Review nasceu (nos fins de 1969 até, em 1980, ter mudado o nome de volta para Chess Life).

Eu escolhi as edições de 1960 da Chess Review uma vez que, naquela altura, eles acreditavam que iriam ficar como a revista número-um por muitos, muitos anos. É claro, eles não tinham nenhuma ideia de que, em somente um ano, a batalha com a Chess Life iria acender uma guerra pela supremacia.

January 1960 issue of Chess Review. Image via eBay.

A edição de Janeiro de 1960 da Chess Review. Imagem via eBay. 

Em 1960, a Chess Review começou com uma foto de capa muito bonita. Depois a próxima página era sobre 10 exercícios de xadrez (um bom começo!). A página-um tinha uma foto muito interessante tirada numa fábrica de equipamento desportivo em Belgrado. Bastantes pessoas estavam a brincar em baloiços e sobe e desces. As pessoas, brincado como crianças: Petrosian, Tal, Averbakh, e Keres.

Por baixo da foto estavam várias curiosidades do que tinha acontecido durante o torneio dos pretendentes. As minhas duas histórias favoritas daquele torneio:

1. Benko vs. Gligoric estavam a jogar. Gligoric fez asneira na abertura, Benko começou a gastar carradas de tempo (ele usa sempre carradas de tempo), Gligoric lutou em resposta, Benko recusou um empate, mais lances foram feitos, e com cinco lances restantes para chegar ao controlo de tempo Benko ofereceu um empate e os seu oponente aceitou-o. Algum espectador ao acaso estava com curiosidade sobre quanto tempo Benko tinha deixado e então caminhou para o tabuleiro, começou o relógio, e a bandeira de Benko caiu instantaneamente!
2. Na rodada nove, Gligoric ofereceu um empate a Petrosian e acabou por vencer quando esta foi recusada. No entanto, descobriu-se que Petrosian, sendo surdo, não tinha simplesmente ouvido a oferta!

3. Benko pensou que Tal podia estar a hipnotizá-lo. Daí, quando eles jogavam, ele colocava óculos de sol. Infelizmente os óculos podem ter interferido com a sua visão e Benko dependurou um peão sem razão e, é claro, perdeu a partida.

4. Tal jogou uma exibição de pingpong e xadrez em simultâneo, fazendo os seus lances de xadrez durante o breve intervalo quando a bola estava fora de jogo.

Até aqui, duas páginas e já estou me estou a divertir. Será que a revista consegue continuar com a boa disposição? Duvido, mas tudo é possível! Vejamos... ahh... Os Campeonatos dos EUA estão prestes a começar e haviam alguns problemas (eu não sei o que estes problemas eram). Devido a isto, Fischer estava aborrecido e abandonou. A substituição foi Tony Saidy (o herói do fantástico filme da HBO sobre Fischer). Saidy aceitou, e depois Fischer decidiu jogar afinal de contas, deixando Saidy dependurado no ar.

September 1960 issue of Chess Review. Image via eBay.

A edição de Setembro de 1960 da Chess Review. Imagem via eBay. 

Tinha de acontecer! A página quatro apresentava uma foto e informação sobre o Clube de Xadrez de Waterville ter derrotado o Clube de Xadrez de Portland 5-4. Eu estava prestes a saltar algumas páginas que não ofereciam colunas mas fui parado imediatamente na página cinco, que apresentava uma linha teórica que se pensava ser boa para as Pretas.

Na mesma página eu reparei noutra Defesa Francesa. Certamente que as Pretas teriam um resultado melhor do que na partida anterior:

E agora o nosso primeiro exercício:

EXERCÍCIO 1

O que se passa? Ainda só estou na página cinco (!!!) e ainda tenho mais 380 páginas para ver se eu olhar para todas as edições de 1960 (agora é evidente que não as vou conseguir ver todas).

FOCO NAS ABERTURAS

Saltando algumas páginas, eu encontro o FOCO NAS ABERTURAS pelo Dr. Max Euwe. Ele discutiu:

No entanto, ele discutiu também:

Devido ao ritmo lento desta linha, muito ainda é valido (embora não seja prejudicial de consultar uma análise moderna da sua linha). Mais importante, Euwe ensina-te sobre os prós e contras desta configuração, misturando uma conversa erudita com um pouco de humor por Keres.

Euwe: “A continuação mais frequentemente jogada nesta nova-velha abertura é a assim chamada 'Variante de Dois Cavalos,' que, por algum tempo, parecia estar prestes a matar a Caro-Kann."

SILMAN: Haviam mais coisas, mas eu tenho de continuar em frente para outras coisas fantásticas. Oh, eu esqueci-me de te dizer que Keres tinha razão. 7.Bd2 é agora a escolha mais comum para as Brancas, seguido por 7.a3.


TÁTICAS E MAIS EUWE

Continuando, eu encontrei mais táticas básicas, mais posições sobre táticas (O TOQUE FINAL por Walter Korn), e mais outra coluna por Euwe, desta vez sobre Finais (Torre Contra Peoes). Eu deixarei os finais de Euwe para trás (eu já lhe dei uma entrada) e vou mostrar-te alguns dos exercícios de Walter Korn.

EXERCÍCIO 2

As Pretas perderam a oportunidade duma vida. Consegues vê-la?

EXERCÍCIO 3

Duma partida por Richter, Berlim 1929.

EXERCÍCIO 4



UMA HISTÓRIA de TRÊS CARO-KANN

Partidas de Eventos Recentes por Hans Kmoch

Afastando-nos dos exercícios, eu tive a sensação de 'déjà vu.' Depois do artigo de Euwe sobre 1.e4 c6 2.Cc3 d5 3.Cf3 Bg4 4.h3 Bxf3 5.Dxf3 Cf6 6.d3 e6 7.g3 Bb4, eu pensei o que tinha deixado para trás. Mas não, Hans Kmoch decidiu atirar-me uma surpresa ao meu rosto! A sua HISTÓRIA de TRÊS CARO-KANN era exatamente sobre a mesma variante!

Todas as três partidas tinham Fischer a jogar de Brancas, e todas as três partidas mostravam que as Pretas não tinham muito com que se preocupar. Ainda assim, Fischer perdeu duas das três partidas — Keres venceu duas e Benko perdeu. Todas as três partidas estavam extensivamente anotadas.

PARTIDAS DE LEITORES

O Declínio e Ascensão do Gambito, por Al Horowitz

Eu estava ansioso em ver isto uma vez que Al Horowitz era o coração e a alma desta revista. No fim de contas, depois de trabalhar na Chess Review de 1933 até aos fins de 1969, ele tinha de ser uma parte integral desta. As várias entradas que eu encontrei em página após página eram um Horowitz puro.

Nesta coluna ele mostrava a (pelo menos nesta partida) morte do Gambito da Ala (Wing Gambit). No entanto, a segunda partida mostrava que sacrificar material ainda é muito divertido!



O CAMPEONATO DE SENHORAS DOS EUA

Na página 26 com mais 359 páginas para rever! Eu não vou conseguir, capitão, não vou conseguir chegar ao fim!

Lisa Lane teve uma pontuação de 7-1, com Gresser só meio-ponto atrás. Eu notei Lena Grummette, que dirigia um clube de xadrez muito bom da sua casa em Los Angeles. Ela ficou em penúltimo lugar (2-6) mas ajudou o xadrez de tantas maneiras.


FISCHER PRIMEIRO MAIS UMA VEZ

Campeonato dos Estados Unidos, 1959-60

Fischer mais uma vez chutou os seus oponentes para a rua com uma pontuação invicta de 9-2; Robert Byrne ficou por perto com 8-3. Eu passei mais colunas de Max Euwe, uma intitulada, CAMPEONATO DA ALEMANHA OCIDENTAL e outra intitulada, ÚLTIMAS NOTÍCIAS SOBRE A ÍNDIA DE REI. Quando referências a Fischer aparecem, as outras coisas parecem simplesmente desaparecer.


TAL PARA PARTICIPAR NO TORNEIO DOS PRETENDENTES

Não digas a ninguém, mas ele irá falar sobre Fischer

“Como herói do torneio eu declaro Paul Keres. Com a idade de quarenta e três anos ele jogou como um jovem de vinte. Antes do torneio muitos jornalistas expressaram a opinião de que Keres iria participar com a ideia de 'Agora ou Nunca.' Ele é um jogador de grande força e depois de um intervalo de três anos, no próximo torneio (no qual ele ganhou o direito de participar ao ficar em segundo lugar neste) ele será um dos principais competidores.

"O Campeão Petrosian da União Soviética podia ter esperado ter feito melhor. Mas ele jogou sem entusiasmo e isto foi aparente na sua pontuação. Ele empatou muitas partidas e não esteve em contenção para o primeiro lugar. O falhanço de Smyslov provocou uma surpresa ainda maior. Em estilo e também em caracter ele é um jogador muito uniforme, mas logo desde o início deste torneio ele mostrou-se demasiado ansioso. Pode ser que ele precisa de aprender as peculiaridades dos seus adversários. Desde 1954 que ele tem jogado principalmente contra Botvinnik e ele perdeu o contacto com o estilo doutros grande mestres. Somente na terceira rodada mostrou ele o seu poder excepcional, mas nessa altura já era demasiado tarde para vencer.

“Fischer, logo desde o início, sonhou em ser campeão do mundo. Mas ele teria tido chances melhores se jogasse, primeiro, para o campeonato de juniores. Neste, sem qualquer dúvida, ele teria vencido. Ele mostrou ser um jogador de grande nível, e num futuro próximo será um oponente considerável.

“Eu próprio joguei de forma irregular. Mas numa competição tão longa é difícil de jogar sempre bem. Estando em má condição física no início, foi só na terceira ronda, em Zagreb, que eu consegui aplicar todas as minha capacidades.

“Como a minha melhor partida esta pode ser aquela com Smyslov na segunda rodada e a partida com Fischer na terceira.

“Há muito tempo que eu tenho sonhado em jogar pelo menos uma partida com o campeão e estou satisfeito que agora eu vou jogar com ele num confronto inteiro."

Eu não posso imaginar que Fischer ficasse contente em ouvir o conselho de Tal de jogar no campeonato de juniores e de que no futuro próximo ele seria um adversário a considerar.


AVENTURAS DUM JOGADOR INEXPERIENTE
por Fred M. Wren

O Sr. Wren era frequentemente visto como alguém que retratava a alma dum jogador de xadrez. Ele tinha uma caneta espirituosa e uma abundância de energia. Aqui está uma parte dum parágrafo:

“Houve uma altura em que que fui suficientemente estúpido para proclamar para uma audiência de rádio do país inteiro que 'a rotação de uma roda, a saída de cartas, o resultado de dados — qualquer factor que envolve sorte ou probabilidade — não tem aplicação ao jogo de xadrez. Se tu jogas melhor xadrez que o teu adversário, tu vences. Se ele joga melhor que tu, tu perdes. É tão simples como isso.' A pior parte disso é que, quando eu o disse, eu na verdade o acreditava! Porque, embora os meus oponentes de xadrez venham há anos a chamar-me o xadrezista vivo com mais sorte, eu tinha rido sempre das suas queixas como 'dor de cotovelo,' dizendo que o que eles se referem com inveja à 'sorte de Wren' era apenas um termo genérico que descrevia um talento de xadrez de tal âmbito e brilho que estava muito para além dos seus poderes de compreensão e também para além da capacidade dos seus vocabulários de definir adequadamente. Daí, a generalização deles — ‘sorte de Wren.’”

Ler isto tipo de coisas é verdadeiramente divertido. Se possível, procura pelo material dele!


OBRAS PRIMAS DO PASSADO
por Fred Reinfeld

Antes de eu começar com esta coluna, eu devo dizer que quando eu era muito novo (12 ou 13 anos e sem noção) eu pensava que Reinfeld era um escritor horrível. De facto, nesses dias outros jogadores exprimiam a mesma opinião.  Foi só quando eu compreendi um pouco mais sobre xadrez que eu me apercebi que ele estava muito, MUITO adiantado para o seu tempo. Primeiro, ele era um dos 10 melhores jogadores nos EUA (ele foi o número seis em certa altura). Tanto sobre ele ser um tolo. Mas o que ele escrevia foi o que me conquistou. Sim, embora ele tivesse escrito mais de 100 livros de xadrez, alguns destes eram de facto do tipo de "dá-me o teu dinheiro rapidamente" (toda a gente tem de comer). Mas a grande maioria dos seus livros foram de bons para muito bons para incríveis. 'The Great Chess Masters and Their Games' é um clássico obrigatório, todas as suas biografias (Alekhine, Capablanca, Keres, Emanuel Lasker, Murphy, e Nimzowitsch) são muito agradáveis, e ao mesmo tempo que eu escrevo isto estou a olhar para o seu 'Practical End-Game Play' (contem alguma partidas muito boas que não estão em qualquer base de dados), que eu tenho apreciado através da minha carreira. Ele faleceu com a idade de 54 anos. Eu desejo ter sido capaz de lhe agradecer por tudo o que ele me ensinou, incluindo um amor da história do xadrez.

Okay, de volta para a sua coluna!

“Era característico do estilo energético de Alekhine que uma vez que ele obtia a vantagem ele a explorava com uma energia super-humana. Esta técnica produziu partidas que são altamente instrutivas e também muito agradáveis."

Em vez de te dar a partida inteira, eu vou transformá-la num exercício:

EXERCÍCIO 5

Eu suponho que tenho de terminar isto ou ficarei aqui sentado para sempre, com a minha esposa a afiar a faca. É uma pena que eu não te possa mostrar a vitória de Lombardy sobre Spassky (anotada por Hans Kmoch). É triste que eu não te possa mostrar todas as colunas de Euwe. E é um crime que não te posso mostrar DEPOIS DO CONFRONTO PARA O TÍTULO MUNDIAL DE XADREZ por Mikhail Tal, em que Tal pessoalmente discutia (em duas páginas enormes) a sua vitória sobre Botvinnik.

Portanto, qual das revistas (nos seus melhores anos) ganhou? Chess Life (até se ter despenhado e ardido no fim da década de 1970), Chess Review (uma revista maravilhosa até Horowitz, que foi o proprietário e editor de 1933 para 1969, se ter afastado), ou Chess Life and Review (um tipo de quimera de xadrez, que se combinava com as duas)? Estas revistas não tinham capas lustrosas. Não eram bonitas. Mas elas davam-te as notícias, elas ofereciam-te colunas maravilhosas por jogadores lendários, elas davam-te montes e montes de fotos, elas davam-te uma quantidade de exercícios sem fim. E, mais importante, elas tinham alma. Quando eu olho para as sofisticadas revistas modernas, eu não sinto que estão vivas (e, é claro, não estão). Mas estas três revistas fizeram parte da minha vida. Elas foram amigos especiais que me visitavam todos os meses. E aqueles que as adoravam ainda lamentam a sua desaparição.

A "vencedora" é óbvia: Chess Life and Review tem de comandar uma vez que absorveu quase tudo de uma e outraO "quase" foi Israel Albert Horowitz, que foi realmente a "alma na concha" [a revista sendo a concha]. Tu sentes a sua presença em cada edição. Tu maravilhavas-te com o amor que ele dava a cada edição, fazendo todas elas algo especial. Isso não pode jamais ser substituído.

Novas revistas brilhantes oferecem bastante, mas os fantasmas das décadas de 60 e 70 só podem ser avistados se tu "escutares" estas revistas. Eu oiço-os constantemente. Lê-as e tu também os irás ouvir.


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