Pequenas Epifanias De Xadrez
Pequenas Epifanias De Xadrez
Algumas pequenas epifanias que tive jogando xadrez nesses três anos que estou nessa lida. Não sou um jogador dedicado, pelo contrário, o xadrez é para mim mais um passatempo, portanto, algumas dessas idéias e divagações que tive provavelmente são óbvias para jogadores mais sérios.
Dito isso, sigamos:
- As Peças Não Controlam As Próprias Casas Onde Estão.
Tentando explicar com um exemplo, a dama pode controlar de uma vez dezenas de casas, mas jamais conseguirá controlar a própria casa onde está, para isso outra peça precisa ser mobilizada.
Um efeito curioso disso é que as peças podem impedir que o Rei inimigo capture suas irmãs, mas não pode fazer o mesmo por si mesmas!
OK, a dama até consegue algo parecido, como efeito da mecânica de sua movimentação, manifesta uma espécie de “aura” ao seu redor impossível ao Rei inimigo ultrapassar e ter acesso a sua casa. No entanto, se a rainha voluntariamente "colocar o rei dentro dessa aura" ele poderá entrar e lhe dar o seu beijo fatal - se outra peça não estiver na defesa, é claro.
- Uma Casa Permanece Controlada Por Uma Peça Mesmo Que Esteja Em Uma Cravada Absoluta.
Isso significa que uma peça pode apoiar um xeque-mate mesmo que esteja absolutamente cravada, o que analisando criticamente pode soar contraintuitivo, já que se -hipoteticamente- o Rei em xeque capturasse a peça atacante, a peça que controla a casa em questão não poderia "ataca-lo" por estar cravada ao seu Rei – isto é, não pode sair de sua posição.
Acontece que o sistema de xeques não funciona assim, o Rei não pode se mover para nem permanecer em uma casa controlada por peça inimiga, pois isso se configura em se colocar/permanecer em xeque, o que sabemos ser um lance ilegal.
É claro que se pode argumentar que a peça está cravada justamente porque é ilegal colocar seu próprio Rei em Xeque, mas a idéia implícita de um xeque é que caso o Rei não seja movido (ou o xeque seja resolvido de outra forma) ele poderá ser capturado pela peça atacante.
Se admitíssemos uma mudança nas regras para permitir que o Rei fosse capturado, venceria aquele que capturasse o Monarca inimigo primeiro, não? Mesmo que o seu Rei estivesse na eminência de ser capturado também. Afinal, Rei morto, Rei deposto.
O ponto controverso da questão é: COMO UMA PEÇA PODE CONTROLAR UMA CASA PARA ONDE NÃO PODE MOVER-SE?
No exemplo prático citado acima: A dama branca dá Xeque ao Rei Preto defendida por um bispo, que por sua vez está cravado ao seu Rei Branco por uma torre inimiga. Para fins legais isso é um xeque mate ao Rei atacado (supondo que não possa fugir nem bloquear o ataque).
Imagino um diálogo entre o Rei atacado e o Bispo defensor:
Rei atacado: - oh não, estou levando xeque dessa dama, não posso fugir nem bloquear o xeque, mas ela está próxima de mim, então vou captura-la.
Bispo defensor: - negativo meu caro, estou defendendo essa casa, se bulir com ela vou aí e dou na sua cara.
Rei: - como é a história? Você consegue vir aqui?
Bispo: - Não consigo, pois estou cravado, mas escute só, vou lhe dar uma peia ein.
Rei: - Pois venha, venha tranquilo.
Bispo: - Vou na hora que quiser, você não manda em mim. Digo mais, vou dá na sua cara, espere só.
Rei: - Ok, sua ameaça parece ser séria, apesar de não poder se mover nenhuma casa. Aceito a derrota fatal de xeque-mate dessa bela dama.
Meus devaneios a parte, é assim que vejo esse aspecto da mecânica do jogo. Se existe alguma explicação lógica para isso eu desconheço e gostaria muito de ouvir.
- Sistema Peão-Bispo;
Esse sistema montando com um peão e um bispo a frente é elegantemente simples e sólido, o peão defende o bispo que defende o peão, você pode até “esquecer” eles lá e se concentrar em outras coisas no tabuleiro, já que estão muito estáveis e poucas coisas podem abalar esse equilíbrio.
Acredite se quiser, mas percebi essa mecânica sozinho durante minhas partidas diárias, modalidade essa aliás que é minha queridinha.
Tempos depois assistindo a enésima temporada de SleepRun vi o Krikor falando exatamente isso
- Sistema Box Peão-Torre;
A idéia é parecida com o sistema anterior, mas a funcionalidade é diferente. Trata‑se de uma caixa para prender um Rei inimigo composto de uma torre defendida por um peão.
Ok, tem umas mil formas de se fazer uma caixa para prender o Rei, e um milhão usando uma torre. A dama por exemplo, nem precisa de outra peça para isso, because “aura”.
Mas o que me chamou a atenção nesta forma de fazer é por usar um simples peão, como já expliquei acima, todas as casas controladas pela torre não incluem a sua própria, portanto, o Rei inimigo poderia flanqueá-la pela diagonal e fazer a captura de sua carcereira.
No entanto, um simples peão impede a captura protegendo a torre e deixando o Rei preso para sempre – ou até eu fazer uma capivarada.
Sim, invés de treinar tática me perco nessas tolas divagações, não é à toa que meu rating é de 800 <e caindo>.