Manual Lasker - Aberturas #2

Manual Lasker - Aberturas #2

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Para termos uma ideia do início dessa evolução, podemos conjecturar que em uma data antiga, quando os jogadores de talento original, aos quais chamaríamos hoje de jogadores “naturais”, predominavam sobre os demais, algum gênio desconhecido, aficionado em colecionar informação, fez anotações sobre o início das boas partidas, as compilou, as classificou e mostrou seu trabalho a alguns amigos. Como consequência natural, alguns dos aplicados e inteligentes aprendizes superaram na primeira dezena de movimentos aos melhores jogadores da época empregando as manobras táticas reunidas no manuscrito de seu amigo compilador. Podemos imaginar a surpresa dos expectadores e a cólera dos derrotados mestres quando observavam aos recém-chegados, sem talento natural, sustentando uma forte luta com a simples ajuda de um livro com informação compilada.
Obviamente, sua cólera foi desaparecendo, mas a causa dela prosseguiu. Desde aqueles dias continuamos tendo compiladores de “variantes”, jogadores que lutam de acordo com os livros e outros com talento natural que, entretanto, não podem chegar no topo.
Existe alguma justificação para o compilador. Pode um jogador converter-se em mestre somente estudando uma compilação? Não. Isso seria possível se o número de linhas de jogo diferentes fosse pequeno. Mas esse número, no Xadrez, é de muitos milhões sem importar quão criticamente possa selecionar e quantas linhas fracas de jogo possa deixar de lado. O cérebro não pode abarcar todas elas por um processo de mera compilação. Portanto, deve-se buscar regras, leis, princípios com os quais se possa compreender o resultado de mil ou até dez mil diferentes variantes.
Naturalmente, isso já foi feito. O processo é o mesmo em todas as investigações que tratam de abarcar uma grande quantidade de material para ser compreendido em detalhe. Talvez foi assim que os jogadores de talento natural trataram de contrapor os esforços dos jogadores de livro. No século XVIII enunciaram sua primeira regra: “Sortez les pièces” (Coloque as peças em jogo). É muito claro o significado desta breve frase. As peças se obstruem entre si na posição inicial, enquanto o centro do tabuleiro está desocupado. Que as peças saiam para dominar uma boa porção do território central e que lutem contra as peças oponentes em sua tarefa de tomarem conta da maior quantidade desse território. E se você tem mobilizado suas peças mais rápido que ele, ataque-o de imediato, antes que ele possa lançar suas tropas, ainda sem desenvolver e, portanto, inúteis a ação no momento.
EMANUEL LASKER, Campeão Mundial