DA ESTRATÉGIA E DA TÁTICA - DO XADREZ PARA A VIDA
Com o sucesso da Série "O Gambito da Rainha", que deveria se chamar "O Gambito da Dama", milhões de pessoas tiveram um primeiro contato com um dos esportes mais intrigantes, democráticos da história da humanidade.
A inteligência, o raciocínio e a memória são algumas das ferramentas utilizadas nesse esporte tão intrigante, mas não são os únicos.
O Xadrez sempre foi considerado um dos jogos mais brutais, pois o jogador deve ter não só a capacidade de vencer o adversário, mas de sacrificar as peças mais valiosas para atingir o abjetivo. O Grande Mestre de Xadrez Garry Kasparov disse que “xadrez é tortura mental”, e ele sabe do que fala.
Uma das coisas que se precisa para jogar xadrez em alto nível é o conhecimento de táticas e estratégias.
Para definir os conceitos de tática e estratégia, lançarei mão dos conhecimentos do Grande Mestre de Xadrez Yasser Seirawan[1], contidos na sua Coleção “Xadrez Vitorioso”.
Para o GM Seirawan:
- “Táticas são manobras que aproveitam oportunidades imediatas”;
- Estratégia “é a busca deliberada de um objetivo simples; ganhar algum tipo de vantagem sobre o adversário”, que pode ser material (força), na mobilidade geral das peças, na estrutura de peões, na amplitude de seu território e na segurança do Rei.
Com esses conhecimentos enxadrísticos, temos que podemos resumir que as táticas buscam ganhos no curto prazo e a estratégia busca ganhos nos médio e longo prazos.
Com tudo isso, temos uma clara noção que o xadrez representa certos aspectos da vida humana que todos nós temos que desenvolver e que poderá nos trazer vitórias gloriosas e sua falta, derrotas arrasadoras.
As gerações atuais não conseguem pensar e agir com estratégia, apenas com a tática. Perdemos a capacidade de resiliência e constância.
No próprio xadrez vemos que há uma clara preferência atual pelos modelos de jogo rápido (Blitz, Bullet e Rapid) ao invés do xadrez clássico, com partidas que perduravam horas e até dias para a sua conclusão.
Não se trata aqui de ter uma postura reacionária. Entendo que a capacidade geral de se agir com uma velocidade maior é o responsável pela criação de uma vacina contra o COVID-19 em tão pouco tempo, assim, a velocidade de ação é um benefício. Contudo, a falta de reflexão no tabuleiro faz com que a precisão do enxadrista abaixe e chegue a nível preocupantes. Nessas partidas, ambos os jogadores contam com suas habilidades e com o erro casual do adversário. Se tudo isso acontecer no tabuleiro de xadrez, perde-se uma partida e as peças podem ser reorganizadas para uma nova, mas, no caso da vida, nem sempre poderemos ter novas oportunidades.
A política mundial trabalha apenas para atender os quesitos imediatos, pois as eleições sempre estão próximas, mesmo quando uma se encerra. Reis e rainhas, mesmo em sua aparente estabilidade, não deixam de lado a sempre imediata necessidade de manter as aparências, mesmo quando “o rei está nu”.
A Academia, encastelada e voltada para si mesma, leva doutores a trabalharem em número de publicações em revistas. Ao invés de buscarem as soluções dos grandes mistérios científicos, contentam-se em produções pequenas e “buchichos” científicos.
Até a teologia geral (as religiões) de hoje leva o homem a buscar a “salvação imediata” e o “paraíso na terra”. Não mais se busca a compreensão do logos divino para tentar se iluminar com a luz celeste. Apenas poucas e simples ações (fórmulas mágicas) darão ao homem sua redenção. Essa é a promessa do “vendedor de unguento”.
Dessa forma, tentando ser o mais breve possível, vejo que há um risco de nos perdermos na velocidade das coisas e do pensamento. O tempo é fator primordial para o homem e não há como este se tornar um grande homem sem que o tempo seja seu aliado. Assim como um Grande Mestre no Xadrez, até mesmo os mais prodigiosos, dedicaram horas, dias e anos de suas vidas para dominar a “arte” do xadrez, o homem deve “gastar tempo” para absorver as coisas que a vida lhes apresenta, sob o risco de viver um eterno bullet, que não dá ao seu jogador o conhecimento aprofundado sobre a nobre arte.
Que possamos refletir sobre tudo isso e, com a ajuda do tempo, chegar a conclusões sólidas e qualificadas ao invés de conclusões rápidas, líquidas e vazias.
Goiânia, 19 de janeiro de 2020.
Fabiano Lima Dias