E aí pessoal! Continuando a postagem sobre o Campeonato Brasileiro, vamos falar agora da grande final, que seria jogada em quatro partidas clássicas e mais duas partidas de rápidas e duas de blitz, em caso de empate no 'tempo normal'.
Após a classificação na semifinal, foi feito um sorteio e eu começaria a final com as peças pretas.
Meu adversário era o MI Roberto Molina, um amigo de longa data, que já enfrentei mais de 20 vezes em competições. Inclusive treinamos juntos por um período, alguns anos atrás, o que significa que já nos conhecíamos bem dentro do tabuleiro.
A FINAL
Sobre a preparação em si: ele sempre foi um jogador de peão dama (1.d4) e também um jogador que gostava dos seus hábitos, ou seja, não costuma sair muito da zona de conforto. Me preparei bastante para essa partida, e acreditei que ele iria manter o peão dama.
Cheguei pra jogar, e como de costume, ele estava um pouco atrasado para a partida. Sentei na mesa, comecei a me concentrar e comecei a me perguntar o que eu faria se ele jogasse 1.e4 no primeiro lance. Ele atrasou cerca de 10 minutos, e nesse período tentei me decidir se eu jogaria 1...e5 ou 1...c5, que são minhas respostas comuns contra peão rei. Decidi que jogaria siciliana e que jogaria rápido, para não demonstrar minha 'surpresa' caso ele jogasse 1.e4. E não deu outra:
Após um certo descontentamento interno de não ter encaixado minha preparação, logo tive uma surpresa: ele jogou a variante de 5.f3 na siciliana, para buscar uma posição menos teórica e tentar me surpreender, o que de fato aconteceu. Minha referência era a famosa vitória de Carlsen na última partida do desempate contra Karjakin, no Campeonato Mundial de 2016. Tentei uma ideia diferente e logo chegamos em um final equilibrado, mas eu gostava da minha posição após 15...f5!
Final - partida 1
Depois desse empate tenso na primeira, eu estava animado para tentar converter o primeiro ponto de brancas e comecei com 1.Cf3!, um lance flexível que parecia incomodar meu adversário. Imaginei que ele estaria preparando mais 1.e4, que normalmente exige mais profundidade e linhas concretas. Logo percebi que a ideia tinha dado bem certo e logo ele fez um erro sério (5...dxe3?), que concede um fortíssimo centro e jogo fácil pro branco - vou seguir com d4, Cc3, e tentar avançar o meu peão de e3, utilizando ainda a coluna f para minha torre. Em questão de poucos lances, a posição preta já está perdida (acho que 13...Ca5?! foi o erro decisivo) e a posição se decide após o forte 18.g4!
Final - partida 2
Agora faltavam apenas duas partidas, precisando fazer 1 ponto para garantir o título. Na terceira partida, imaginei que ele voltaria para o peão dama, mas claro que já fiquei mais alerta com o peão rei que poderia acontecer.
Entramos na variante Ragozin do Gambito de Dama Recusado, e logo chegamos em um final tranquilo, onde tentei uma ideia nova no tabuleiro - ele tinha jogado uma subvariante que eu não lembrava como reagir. Depois da imprecisão 14.d5?!, a posição preta já é preferível, pois o meu bispo em d6 controla todo o contrajogo na ala da dama, enquanto que eu posso expandir no centro e mesmo na ala da dama com b5. O peão branco de d5 é muito ruim pra ele, e os cavalos brancos não tem casas boas. Depois de um meio-jogo sem damas bem confuso, onde deixei passar algumas chances boas, ainda tenho vantagem no final até o momento crítico 43...Cd6, que permite um empate preciso por parte das brancas em um final de peões. Decisivo era 43...Tc2+! seguido de 44...Cc3, com ataque direito ao rei branco.
Final - partida 3
Jogando a última de brancas, eu precisava empatar. Fiz um vídeo comentando o que senti antes, durante e depois dessa partida, que foi o mais dramática possível.
Final - partida 4
É muito difícil se recuperar de uma derrota e eu sabia que não ia ser fácil nesse dia. O desempate consistia em duas partidas rápidas de 25 minutos mais 10 segundos de incremento. Comecei de pretas e repetimos a mesma variante da 3ª partida pensada, mas dessa vez ele jogou melhor e eu fui teimoso em manter a mesma ideia. Eu já tinha visto qual era o lance mais correto, mas cismei de repetir o lance, que ele já tinha estudado, e acabei caindo em uma posição muito inferior logo no começo.
Desempate rápido da final - partida 1
Se recuperar de uma derrota é difícil, e de duas menos ainda. Eu não tinha muita opção, senão sentar e tentar dar o meu melhor na segunda partida do desempate. Repeti o 1.Cf3 das outras partidas, e chegamos em uma posição típica do Gambito Benko, Consegui aplicar um lance temático 13.Bc5! para recuperar o peão e garantir boa vantagem posicional. Depois de complicações, ganhei dois peões, mas ele manteve contrajogo e fiz um erro com 32.Da5?, perdendo o peão de c6. Era melhor 32.Ca5!, mas no momento eu senti que podia levar algum tipo de ataque com 32...Cd2, mas não tinha nada sério para as pretas. Mais algumas imprecisões e caimos em um final com peão a mais para as brancas, mas com perspectivas nulas de vitória. Chegamos até o lance 87, mas o empate foi inevitável.
Uma maneira muito amarga de terminar o Brasileiro, mas assim seguem os torneios - a última partida pensada me trouxe um grande aprendizado, assim como todo o match. Fica meus parabéns ao atual Campeão Brasileiro e que venham os próximos torneios!
Desempate rápido da final - partida 2