Como Seria o Campeonato de Xadrez da Literatura?
Antes mesmo que pudéssemos assistir à segunda rodada do Campeonato Internacional de Xadrez de Filósofos, parece que — para nossa sorte! — outro torneio pouco ortodoxo teve início, na belíssima e tropicalíssima cidade de Macondo. Aparentemente seguindo o exemplo dos filósofos, os protagonistas dos grandes romances mundiais se encontram aqui reunidos para competir uns com os outros!
Gostaríamos de cumprimentar especialmente os organizadores do torneio pela escolha do árbitro. Temos certeza de que o senhor Brás Cubas, com seu incorrigível hábito da sinceridade absoluta, sem nenhuma vergonha nem medo de julgamentos (nem da imprensa, nem de fanáticos), fará ele próprio um bom julgamento das próximas partidas da competição.
Confira, a seguir, o resumo da primeira rodada do Campeonato!
- Sherlock Holmes vs. Rodion Raskólnikov
- Bentinho vs. Josef K.
- Narrador de Em Busca do Tempo Perdido vs. Capitão Ahab
1. Sherlock Holmes vs. Rodion Raskólnikov
O jovem e meticuloso estudante russo Rodion Raskólnikov tentou calcular friamente seus lances, como se cada um deles fosse um crime moralmente justificável. Entretanto, a pesada sensação de culpa que sentia sempre que armava uma cilada acabou entregando seus planos, sem que Holmes precisasse gastar suas habilidades dedutivas. Ao final da partida, Holmes deu um tapa no ombro do adversário e disse: "Elementary, mate".
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O detetive Sherlock Holmes é o personagem principal de uma série de romances e contos escritos por Sir Arthur Conan Doyle, ambientados na Londres vitoriana. Ao lado de seu fiel amigo e cronista, o médico Dr. John Watson, Holmes se envolve em casos complexos de investigação criminal. Com suas extraordinárias habilidades de observação, raciocínio lógico e dedução, consegue solucionar mistérios aparentemente insolúveis, desmascarar culpados e restaurar a ordem na sociedade londrina.

Raskólnikov, um jovem estudante vivendo em miséria em São Petersburgo, empenha os bens que lhe restam para sobreviver e começa a planejar o assassinato de sua senhoria, a agiota Aliena Ivánovna. Com uma teoria de que algumas pessoas extraordinárias tem o direito de transgredir a lei, ele a mata com um machado, junto com sua irmã Lisavieta, que surge inesperadamente. Após o crime, Raskólnikov entra em colapso psicológico, tem febres, alucinações e suspeitas recaem sobre ele, embora um pintor inocente seja preso como culpado.
Enquanto isso, Raskólnikov reencontra amigos e familiares, tentando sempre esconder a culpa pelo crime que cometeu. Quando recebe a visita de sua mãe e sua irmã a seu apartamento minúsculo, ele fica sabendo que sua irmã está noiva de um homem ambicioso chamado Lujin, a quem ele detesta, e por isso se opõe ao noivado.
Raskólnikov tenta esquecer seus problemas fazendo amizade com um homem alcóolatra que encontra na rua, chamado Marmieládov, e até é recebido em sua casa, onde conhece a família de Marmieládov, incluindo Sônia, que faz trabalhos indignos para sustentar sua própria mãe e irmãos. Raskólnikov simpatiza com Sônia a ponto de confessar a ela seu crime.
No entanto, o investigador Porfíri Petrovitch, que há bastante tempo suspeitava de Raskólnikov, o confronta na rua, revelando saber que ele é o culpado pelo assassinato da senhoria. Mas o investigador declara que esperará sua confissão espontânea.
Por influência de Sônia e da irmã, Raskólnikov finalmente se entrega e é condenado a trabalhos forçados na Sibéria. Com o tempo, e pensando em SÕnia, ele se aproxima da redenção. Assim, Dostoiévski transforma a história de um assassinato em uma reflexão profunda sobre culpa, expiação e regeneração espiritual.
2. Bentinho vs. Josef K.
Bentinho jogou a partida inteira com a sensação de que suas peças o estavam traindo. Mas ele acabou vencendo mesmo assim, depois que seu adversário cometeu seu segundo lance irregular. Josef K. se queixou de que não estava entendendo as regras do campeonato, mas o árbitro deu de ombros e não explicou nada.
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Bento Santiago (Bentinho), já idoso e recluso, apelidado de “Dom Casmurro” por sua postura fechada, se recorda de seus tempos de infância, quando sonhava em se casar com a vizinha Capitu, até ser impedido pela promessa de sua mãe, Dona Glória, de enviá-lo ao seminário para se tornar padre. Com a ajuda do agregado (homem que vivia de favor na casa de sua mãe) José Dias e de um amigo que faz no seminário, Escobar, Bentinho descobre uma solução para cumprir a promessa da mãe sem que ele precise virar padre: sua mãe doaria dinheiro à Igreja, que seria usado como bolsa de estudos para outro seminarista. Assim, Bentinho sai do seminário para estudar Direito e se casar com Capitu.
O casal Bentinho e Capitu continua tendo amizade com Escobar (que também conseguiu fugir do seminário) e sua esposa, Sancha. Com o tempo, porém, o ciúme corrói a relação: Bentinho passa a desconfiar da fidelidade da esposa, sobretudo depois que seu filho, Ezequiel, nasce e ele o acha parecido com Escobar. A morte súbita de Escobar, por afogamento enquanto ele nadava, não elimina a suspeita e, consumido pelo ciúme, Bentinho acusa Capitu de adultério. Ela nega, mas suas lágrimas não o convencem. A relação se rompe, e, para evitar escândalo, Bentinho leva Capitu e Ezequiel para a Suíça, retornando sozinho ao Brasil.
Anos depois, Ezequiel volta adulto, trazendo a notícia da morte da mãe. Bentinho o recebe friamente, ainda perturbado pela semelhança com Escobar, até que seu coração amolece e ele trata Ezequiel com mais cordialidade. Depois de um tempo no Brasil, Ezequiel parte para continuar seus estudos no Egito, onde acaba morrendo de febre tifóide. O romance termina com Bentinho isolado e amargo, sem jamais obter certeza sobre a suposta traição de Capitu, deixando para o leitor a dúvida que atravessa toda a narrativa.

Josef K., funcionário de banco, é surpreendido numa manhã por policiais em seu quarto, que o informam que ele está respondendo a um processo judicial misterioso, sem que jamais lhe sejam reveladas as acusações. Convocado ao tribunal, não recebe explicações do juiz e passa a viver sob constante angústia diante da arbitrariedade do sistema judicial, que o processa sem lhe dar chance real de defesa.
Na tentativa de resolver sua situação, K. busca auxílio de um advogado prolixo e pouco eficaz, até que desiste dele e vai buscar ajuda com um pintor ligado ao tribunal, Titorelli (que só por pintar quadros dos juízes parecia saber mais do que os advogados). Este lhe expõe os possíveis desfechos de seu processo: absolvição definitiva (quase impossível), absolvição aparente (temporária, podendo ser revogada em instâncias superiores) ou adiamento indefinido (sem sentença definitiva). Desesperado, K. percebe que nenhuma alternativa lhe oferece saída verdadeira. Ele busca consolo numa igreja, onde conversa com o sacerdote, que lhe conta uma parábola. Nessa parábola, um homem vive à porta da Lei, que é guardada por um anjo, durante toda a sua vida, sem ousar tentar passar pelo guardião e entrar pela porta. Até que o anjo se cansa e o manda ir embora. Essa história simboliza a resignação humana diante da burocracia e da injustiça.
No final, dois agentes o conduzem para fora da cidade e o executam sem resistência. Suas últimas palavras — “Como um cão!” — refletem o desamparo e a humilhação com que aceitou o destino. A obra, com sua atmosfera de absurdo e opressão, denuncia a alienação, o peso da burocracia e a impotência do indivíduo diante de sistemas impessoais e arbitrários.
3. Narrador de Em Busca do Tempo Perdido vs. Capitão Ahab
O narrador de Em Busca do Tempo Perdido sentou-se à mesa com uma xícara de chá preto e uma madeleine, demonstrando calma para a partida. Já o capitão Ahab estava totalmente focado, e nós descobrimos o motivo: ele confundiu o rei branco do adversário com Moby Dick.
Quando o jogador das brancas finalmente mergulhou um pedaço de madeleine no chá e comeu, vimos ele ser tomado por uma necessidade incontrolável de contar toda a sua biografia, até que sua seta caiu.
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Ao saborear uma madeleine mergulhada no chá preto, que desperta lembranças de sua infância, o narrador passa a contar toda sua biografia, buscando reconstruir sua vida e recuperar o tempo que se passou — embora isso (ainda) seja impossível na física, a obra mostra que é possível na arte. O narrador se recorda das influências das duas famílias que dominavam a cidade onde cresceu: os Guermantes (aristocratas) e os Swann (burgueses), ambas moralmente decadentes. Seu primeiro amor foi Gilberte Swann. Depois, ainda na juventude, ele se muda da cidade dos Guermantes e dos Swann e, em sua nova cidade, se apaixona por uma moça chamada Albertine, cujo relacionamento se torna obsessivo e marcado pelo ciúme, até que o narrador rompe. Não conseguindo aceitar o término, Albertine se suicida, o que marca para sempre o narrador.
O livro mostra também figuras típicas da sociedade parisiense, como o jovem e namoradeiro marquês de Saint-Loup, a orgulhosa condessa de Guermantes, os modernos Charles e Odette Swann e o excêntrico barão de Charlus, cuja vida íntima revela a hipocrisia da época.
Já adulto, o narrador testemunha a fusão entre aristocracia e burguesia através do casamento de Gilberte, da família Swann, e Saint-Loup, da família Guermantes — as duas famílias que tanto marcaram sua infância se unem em um casamento, do qual nasce uma filha, que representa a síntese das influências do autor.
Na maturidade, após reencontrar velhos conhecidos envelhecidos e reconhecer a efemeridade da vida, o narrador decide transformar suas lembranças em arte. Ele compreende que sua verdadeira vocação é escrever o livro que o leitor tem em mãos, fechando o ciclo da narrativa. A obra, ao unir memória, desejo, sociedade e arte, redefine o romance moderno, explorando a passagem do tempo e a identidade humana de forma única e inovadora.

Narrado por Ishmael, um jovem aventureiro em busca de trabalho no mar, o romance acompanha sua amizade com o arpoador Queequeg e o embarque no baleeiro Pequod, comandado pelo enigmático capitão Ahab. Logo se revela que Ahab não deseja apenas caçar baleias para extrair óleo, mas persegue obsessivamente Moby Dick, a gigantesca cachalote branca que o mutilou no passado. Apesar das advertências do imediato Starbuck (um homem religioso e prudente), Ahab impõe sua vontade e até recruta secretamente marinheiros orientais para reforçar sua caçada.
Durante a longa viagem, a tripulação encontra outros navios, todos com relatos sobre ataques da baleia. Ahab, porém, de modo insensível, ignora pedidos de ajuda, como o do capitão de outro navio (o Rachel) que passava pelas redondezas, que havia perdido o filho em um confronto com Moby Dick.
Por fim, Moby Dick é avistada e atacada sucessivamente. Ahab chega a feri-la, mas a baleia revida com fúria, destruindo o Pequod e levando consigo o próprio capitão, preso às cordas de seu arpão. De toda a tripulação, apenas Ishmael sobrevive, boiando sobre o caixão construído para Queequeg, até ser resgatado pelo Rachel. Assim, Melville transforma a história da caçada em uma parábola sobre obsessão, orgulho e o confronto do homem com as forças insondáveis da natureza.
— estdx, para o Chess.com.
Esperamos que todos tenham apreciado as partidas, apesar das cenas pouco esperadas por expectadores de campeonatos de xadrez. E seguimos atentos para cobrir novos campeonatos estranhíssimos pelo mundo!
Billy