O Xadrez na Literatura
Cada centelha incêndio faz ingente
Em soma tal, que a do xadrez passava,
Dobrando-se o algarismo infindamente.
É com esses versos que o poeta italiano Dante Alighieri descreve os anjos do Paraíso, em seu poema épico-religioso intitulado A Divina Comédia*. Na imaginação de Dante, os anjos seriam tantos, que rivalizariam com o número de grãos de trigo da lenda indiana da invenção do chaturanga (o antepassado mais antigo do xadrez), na qual o inventor do jogo, o brâmane Lahur Sessa, pede como recompensa 1 grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro, 2 grãos pela segunda casa, 4 pela terceira e assim por diante, sempre dobrando a quantidade até chegar na sexagésima quarta casa.
Hoje em dia, nós sabemos que o número total de grãos corresponde à soma da progressão geométrica (PG, uma sequência de números que vão sendo multiplicados por uma constante, no caso o 2) 1 + 2 + 4 + 8 + 16 + … + 263.
Fazendo os cálculos, os contadores do rajá (o nobre indiano que tinha aberto o concurso de criação de jogos, vencido por Sessa) descobriram que essa soma dá mais de 18 quintilhões. Uma versão da história diz que o rajá, arrependido por ter oferecido qualquer recompensa pela invenção do chaturanga, mesmo sem saber se poderia pagá-la, e por ter subestimado o pedido de Sessa, deu a ele outro prêmio, nomeando-o seu ministro.
Dante conhecia essa lenda e a citou em seu poema, fazendo uma comparação entre o número de anjos no Paraíso e o número de grãos de trigo que Lahur Sessa pediu.
Os exemplos de citações do xadrez na literatura que eu trago neste post provavelmente não são os mais famosos, mas são os com que eu tive contato e dos quais eu me lembro no momento. De qualquer maneira, são citações interessantes.
No comédia infantojuvenil Elliot Allagash: Diário de um Ex-Perdedor, o adolescente Seymour Herson, um impopular estudante do ensino médio na Glendale Preparatory, faz amizade com um herdeiro zilionário, o mimado Elliot Allagash, que foi matriculado na mesma escola após ser expulso de dezenas de escolas de elite por todos os EUA por seu comportamento inadequado --- o que incluía estratégias para colar nas provas, suborno e sabotagem, tudo isso com 13 anos.
Querendo matar o tédio, Elliot decide orientar Seymour para fazê-lo se transformar de um garoto inseguro para uma celebridade da escola. Elliot, inclusive, usa a riqueza de sua família e a ajuda de seu guarda-costas, James, para contratar coachs e para comprar tudo que Seymour precisa para brilhar. Os resultados, no entanto, acabam não sendo tão positivos para Seymour, que, incialmente seduzido pelas promessas de Elliot, se vê cada vez mais preso a ele.
Apesar dos clichês, o livro, escrito por Simon Rich (roteirista do Saturday Night Live), é intensamente engraçado e também oferece reflexões para adolescentes sobre que coisas são realmente importantes na vida.
O xadrez é citado no livro em uma conversa entre Terry, pai de Elliot, e Seymour. Terry conta como ele, quando estava na graduação, se tornou campeão de xadrez de Harvard, aproveitando para exibir, com orgulho, o troféu correspondente, em cima de uma prateleira.
Segundo Terry, a universidade tinha um clube de xadrez que organizava campeonatos, e, ao tomar conhecimento, ele se sentiu excluído pela primeira vez na vida (já que não sabia nada sobre o jogo), decidindo também competir até se tornar campeão da instituição.
Mas Terry queria alcançar seus objetivos sem comprometer sua participação nas festas para as quais sempre era convidado. Então, ele contratou outro estudante de Harvard, especialista em xadrez, e com dificuldades financeiras, para ajudá-lo, em troca de quantias generosas. Durante suas partidas, Terry passa a se comunicar com “Fishman” (esse é o nome de que o pai de Elliot se lembra, ao contar a história para Seymour --- talvez uma piada de Simon Rich com Fischer) por meio de um ponto eletrônico escondido em seu ouvido.
Entretanto, para passar as informações do tabuleiro para seu ajudante, Terry é obrigado a fazer gestos que acabam levantando suspeitas, como comentar em voz alta todos os lances de seus adversários --- “Ah, vejo que você moveu seu bispo, ameaçando capturar o meu cavalo. Não o bispo que estava do lado da sua rainha, mas o outro bispo. Muito esperto!”. Quando seus adversários começam o provocá-lo (“Todo mundo sabe que você trapaceia, Terry”, ou “Por que não para de trapacear, Terry?”), ele passa a usar códigos para se comunicar com Fishman, mas isso também não funciona --- em certa partida, seu adversário move a mesma peça oito vezes seguidas, obrigando Terry a murmurar “sacana!” oito vezes seguidas para que Fishman, longe dali, ouça e entenda que peça o adversário mexeu.
De qualquer maneira, Terry se classifica para a final do campeonato, na qual jogará contra um estudante russo. Ao dizer seu nome a Fishman, este diz que não poderá ajudar nesse caso, pois não tem chance alguma contra o russo. Terry não se impressiona. Simplesmente, alguns dias antes da partida, ele visita seu barman preferido. Este lhe entrega sua bebida de sempre, que é recusada. Depois de confirmar que tinha misturado os ingredientes corretos, o barman pergunta se Terry estava doente. O magnata o tranquiliza, dizendo apenas que terá uma partida de xadrez importante dali a alguns dias, e pede que lhe traga livros. “Sobre xadrez?”, o barman pergunta. “Não. Sobre nutrição”, Terry responde.
No dia da final do campeonato, Terry e seu adversário chegam à tenda onde jogarão (esse local isolado tinha sido imposto como uma forma de prevenir trapaças). Apenas os dois entram, e se sentam. Terry pergunta se pode pedir somente que tragam uma garrafa de café, o que o russo aceita.
O russo reclama da lentidão de Terry para fazer seus lances. “Você está adiando o inevitável”, ele diz; “Estou usando o tempo a que tenho direito”, Terry responde. O magnata finalmente faz seu primeiro lance na partida, um movimento com o bispo, pelo que ele se recorda. Depois de um longo tempo, seu adversário provoca: “Por que não abandona logo?”. “Porque eu faria isso? Estou ganhando”, Terry retruca. O russo olha para o tabuleiro e não o compreende. É então que Terry explica que ele se submeteu a uma dieta com ingestão mínima de líquidos nas últimas 48 horas, enquanto seu adversário acabou de tomar uma garrafa inteira de café. Pelas regras que ambos assinaram, nenhum dos dois pode sair da tenda antes do fim da partida, sob pena de derrota.
Nesse momento, o adversário de Terry se dá conta de suas necessidades fisiológicas. Sem acreditar no cinismo do oponente, o russo propõe um empate técnico. É claro que o magnata recusa. Mais alguns minutos e o russo, não aguentando a própria bexiga, se retira, às pressas, da tenda, pronunciando mais algumas palavras pouco amigáveis contra Terry.
E foi assim que Terry Allagash se tornou campeão de xadrez da melhor universidade do mundo.
Outra pérola literária sobre o xadrez são as últimas páginas do livro História do Xadrez, de Edward Lasker. Trata-se de um manual escrito por um amador inglês do século XIX, um certo capitão Kennedy, sobre como se comportar ao jogar xadrez em clubes, e que Lasker decidiu incluir em seu livro.
As orientações são as seguintes:
- Quando perder uma partida, jamais cometa a tolice de admitir que perdeu porque seu adversário realmente jogou melhor. Há várias alternativas menos humilhantes, como alegar uma dor de cabeça, ou que sua cabeça estava ocupada com outras coisas que vem lhe tirando a concentração por esses dias, ou que esperava mais emoção na partida. Essa última desculpa é particularmente boa, porque, além de lhe remover o peso da derrota, ainda insinua que seu adversário é fraco demais para que alguém se dê ao trabalho de derrotá-lo. Por fim, pode-se alegar também que o resultado da partida foi puro acaso, como aliás sempre é no xadrez, não tendo nada a ver com a diferença de forças dos adversários.
- Outra possibilidade é lamentar-se, baixinho, ao final da partida: “Ai, ai, hoje em dia qualquer capivara do clube acha que pode me derrotar”, enquanto olha para o nada, como se estivesse se lembrando das glórias de vitórias passadas.
- Algumas pessoas têm tendências musicais naturais e involuntárias. Que culpa uma pessoa dessas teria se, por acaso, sentisse necessidade de cantar, batendo palmas, enquanto aguarda o próximo lance de seu adversário?
- Se sua posição estiver perdida, sem chance de virada, pendure sua Dama ou outra peça importante. Quando o adversário capturá-la, vá com as mãos na cabeça, soltando uma exclamação de surpresa e se lamentando porque você fica melhor a partida inteira, mas sempre acaba perdendo só por causa de um deslize desses.
*Os versos citados foram retirados da tradução da Divina Comédia para o português feita por José Pedro Xavier Pinheiro.
Clique aqui para saber mais sobre o xadrez na literatura da Idade Média.
Clique aqui para uma indicação de livro com piadas sobre xadrez.
Billy