O Xadrez no Brasil de Dom Pedro II
Invejosos dirão que é IA, mas nem existia IA naquela época!

O Xadrez no Brasil de Dom Pedro II

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Não é segredo que nosso segundo e último imperador foi também um raro tipo de intelectual, com interesse por diversas áreas do conhecimento. E o xadrez não ficou de fora: Dom Pedro II admirava o jogo, abrindo espaço para que, em seu reinado, o xadrez nacional evoluísse como nunca antes.

Fala do Trono, de Pedro Américo

Sabemos disso por meio de fontes históricas, entre elas os diários pessoais do imperador. No volume 11 deles, escrito em 1871, durante a primeira viagem de D. Pedro II para o exterior (ele já tinha 45 anos e estava a bordo do navio Douro com destino à Europa, para se recuperar da recente morte de sua filha mais nova, princesa Leopoldina), lemos um elogio a outro tripulante, citando que o desconhecido jogava bem xadrez:

Há a bordo um inglês (Mr. Croskill) assaz original e que por animar os enjoados chamaram consolador dos enjoados. Com traje de mau tempo é uma espécie de urso, mas amável e bom jogador de xadrez. Passeia com relógio na mão, pois segundo ele diz certo tempo de passeio é indispensável a sua higiene.

Mas será que o imperador também se dava à prática do jogo, ou apenas admirava quem jogava? Podemos encontrar a resposta no volume 29 de seus diários, onde lemos a seguinte frase:

Joguei e vi jogar xadrez e vou deitar-me dentro em pouco.

Esta última frase foi escrita por D. Pedro II já idoso, após o golpe republicano e o exílio da família imperial. De qualquer maneira, certamente o imperador aprendeu a jogar xadrez muito antes, provavelmente em meio aos seus primeiros estudos, que incluíram idiomas, história e geografia, ciências, artes e educação física. O fato é que, desde a Idade Média, o xadrez faz parte da cultura da nobreza, sendo usado não só como entretenimento, mas também como meio de treinamento da estratégia militar.

A mesma disciplina rigorosa de estudos o imperador impôs às suas duas filhas, princesas Isabel e Leopoldina. A primeira também se tornou uma apreciadora do jogo de xadrez, ensinando-o, por sua vez, a seus filhos. A imagem abaixo mostra peças feitas de osso que pertenceram aos filhos da princesa Isabel, e que se encontram hoje no Museu Imperial (antiga casa de verão de D. Pedro II), em Petrópolis (RJ).

Princesa Isabel

Mas não foi só na família do imperador que o xadrez, durante seu reinado, encontrou acolhimento. Sua prática se popularizou muito nessa época, e o apoio que o imperador dava à cultura certamente contribui. O primeiro livro nacional sobre xadrez foi publicado no Segundo Reinado, pelo desembargador Henrique Velloso d’Oliveira e tinha um título misterioso: O Perfeito Jogador de Xadrez [...] Acrescentado com 40 fins de partidas e casos difíceis do jogo, fornecidos por um consumado calculista brasileiro.

Mais tarde, outro personagem fundamental para o desenvolvimento do xadrez nacional foi o pianista português Arthur Napoleão dos Santos (1843-1925), que imigrou para o Brasil ainda na juventude. Chegando ao país, como era costume, Arthur foi entregar uma carta de apresentação a Dom Pedro II, sendo muito bem recebido e logo se tornando sensação na Corte.

Arthur Napoleão dos Santos. Veja aqui uma partida dele contra a lenda americana Paul Morphy!

Além de músico de alto nível, Arthur também foi um enxadrista habilidoso. Ele participou da abertura do Club de Xadrez, um espaço dedicado à prática do jogo, mas que não durou muito, sendo substituído pelo Club Beethoven (ficava no bairro do Catete — RJ), que, apesar do nome musical, ficou conhecido também pelos torneios de xadrez que abrigou, a partir de 1883. Um frequentador desses torneio era o amigo de Arthur Napoleão, o escritor Machado de Assis, que era um enxadrista amador, além de monarquista, tendo sido premiado pelo imperador com o título de Oficial da Ordem da Rosa. Clique aqui para ver uma partida completa de Machado, na qual ele vence de pretas. O Club Beethoven foi sucedido por outros clubes culturais, inclusive de xadrez, no Brasil.

Machado de Assis

Arthur também foi o autor do segundo livro brasileiro de xadrez, e o primeiro de problemas, com o título Caissana Brasileira (o título é uma referência a Caíssa, deusa mitológica do xadrez). Esse livro continha, inclusive, um problema elaborado por Machado de Assis. Tente resolver, abaixo, o problema machadiano!

Referências

Almanaque de Petrópolis nº IV — Março/2015.

Manual de Xadrez, de Idel Becker

O Perfeito Jogador de Xadrez

Transcrições dos diários de D. Pedro II

Bem-vindo ao meu Blog! Sou um professor de matemática do Ensino Fundamental no Brasil, e mestrando em Educação. Aqui, você encontrará resenhas de livros e posts relacionando o xadrez com outras áreas, principalmente artes, matemática, filosofia e história!