FIDE bane adolescente holandês após celular ser encontrado escondido na meia
Um adolescente holandês foi banido por três anos, com um ano suspenso, pela Comissão de Ética e Disciplina da FIDE (EDC), após ser flagrado com um telefone celular escondido na meia durante um torneio na Holanda no ano passado.
A decisão foi tornada pública pela EDC na semana passada e diz respeito a Joeri Harreman, de 19 anos, que foi expulso do 26º Torneio de Xadrez da Universidade Hogeschool Zeeland, em Vlissingen, em agosto de 2024. O evento é um dos torneios abertos mais importantes da Holanda e contou com nove grandes mestres entre os 230 participantes.
Na época, o Chess.com noticiou o caso, destacando que Harreman, que tem um rating nacional inferior a 1700, havia levantado suspeitas após uma série de resultados impressionantes, que o organizador do torneio, Hans Groffen, descreveu como um "jogo quase perfeito".
"É claro que é lamentável que isso aconteça com você como organizador, mas, por outro lado, também ficamos aliviados que essas maçãs podres tenham sido removidas", disse Groffen em um comunicado à imprensa na época.
Na quinta rodada, ele derrotou o FM Esper van Baar, o que levou o jogador, com rating 2248, a alertar o árbitro-chefe por e-mail. "Lembro que fiquei impressionado com o quanto ele conhecia de teoria. Também achei muito peculiar o lance Dd8-Df8 durante a partida", disse Van Baar ao Chess.com, acrescentando: "Depois fui completamente atropelado ao cometer um grande erro tático no apuro de tempo."
Ele enviou ao Chess.com a partida abaixo:
"No começo, eu ainda não tinha certeza se ele realmente estava trapaceando, porque eu também cheguei com 40 minutos de atraso depois que minha bicicleta havia sido roubada. Mas ele jogou com tanta precisão que, depois de analisar a partida, tive quase certeza. Eu já estava um pouco desconfiado antes da partida, por causa dos resultados dele", contou.
Ele jogou com tanta precisão que, depois de analisar a partida, tive quase certeza.
—Esper van Baar sobre suspeitar que seu adversário estava trapaceando
Na rodada seguinte, Harreman jogou em um tabuleiro que estava sendo transmitido ao vivo, onde os jogadores eram submetidos a detectores de metal obrigatórios na entrada. Ele perdeu essa partida facilmente para o mestre internacional.
Na sétima rodada, ele não jogava no tabuleiro com transmissão ao vivo e não era obrigado a passar pelo detector na entrada. Segundo o relatório do Árbitro Chefe Bart De Vogelaere, o jogador foi ao banheiro logo após o início da rodada. Ao retornar, dois árbitros o aguardavam, pedindo que ele passasse por uma revista.
De acordo com a decisão, Harreman inicialmente recusou-se a ser revistado várias vezes. Depois de ser informado de que a partida seria declarada perdida, que ele não seria emparceirado pelo restante do torneio e que um relatório seria enviado à FIDE, ele concordou. Durante a inspeção, foi encontrado um celular escondido em sua meia, segundo a decisão.
O réu afirmou em sua defesa oral perante o Árbitro Chefe que carregar um celular dentro da meia era algo totalmente natural entre os jovens da sua idade. No entanto, ele recusou o pedido do Árbitro Chefe para ligar o telefone e permitir que fosse inspecionado.
O jogador alegou ter "esquecido" que o celular estava com ele e entrou em pânico ao ser confrontado, segundo o relatório do Árbitro Chefe. No entanto, ele também se recusou a desbloquear o aparelho quando solicitado, afirmando que "celular é algo privado". Por não cooperar com os árbitros, Harreman foi expulso do torneio e sua partida em andamento foi declarada perdida.
O caso foi investigado pelo Painel de Fair Play da FIDE, que nomeou o Professor IM Kenneth Regan, uma autoridade renomada em trapaças no xadrez que utiliza modelos estatísticos, para analisar suas partidas. O relatório de Regan concluiu que o desempenho do jogador apresentou um Z-score "acima do limite da FIDE de 2,5", consistente com jogo auxiliado por computador.
Harreman, por meio de seu advogado, alegou em sua defesa que seus resultados expressivos eram enganosos, já que seu rating se baseava em apenas algumas partidas. Ele destacou que não havia provas de que o celular tivesse sido realmente usado, e nenhuma testemunha o viu efetivamente utilizando o telefone para trapacear.
A defesa não convenceu a EDC, que considerou Harreman culpado tanto de trapaça quanto de não cooperar com os árbitros:
Os fatos de que o réu escondeu o celular, o levou consigo ao banheiro, o ocultou nas meias, recusou-se inicialmente a ser submetido à revista e só aceitou ser examinado após saber que a recusa resultaria em expulsão do torneio e outras medidas estão comprovados pelo relatório do Árbitro Chefe, assim como pelos depoimentos de outros árbitros e oficiais. Além disso, o próprio réu confirmou esses fatos em diversas ocasiões durante sua defesa, apresentados como uma demonstração de arrependimento. Se ele realmente não tivesse trapaceado, poderia simplesmente ter atendido ao pedido dos árbitros de examinar seu celular.
A decisão da EDC ocorreu após o tribunal competente da Federação Holandesa de Xadrez ter anteriormente inocentado Harreman de trapaça, por não conseguir provar que ele havia "usado intencionalmente ou pretendia usar um dispositivo eletrônico", sendo apenas determinado que ele havia violado "outras regras de fair play" ao levar um celular para o salão do torneio. No entanto, esse veredicto foi emitido antes da disponibilidade do relatório do Professor Regan. A federação apresentou um recurso, e a decisão final foi suspensa.
A EDC rejeitou esses argumentos, destacando que a FIDE tem jurisdição sobre todos os torneios internacionais, independentemente de decisões nacionais. Harreman foi banido por 36 meses, com 12 meses suspensos em caráter probatório, devido a fatores atenuantes como sua idade, ficha limpa, baixo rating e demonstração de arrependimento
O caso marca o segundo grande incidente de trapaça relacionado ao torneio de Vlissingen. Em 2022, a FIDE baniu um jogador de Singapura por dois anos, após ele confessar ter usado um celular durante quatro partidas na edição de 2019 do torneio.
No mesmo ano, outro jovem de 19 anos foi flagrado com um celular durante o Dutch Open Championship, após apresentar uma sequência de resultados expressivos em torneios amadores.
Harreman não respondeu ao pedido de comentário do Chess.com. Seu advogado também não respondeu a uma consulta separada.