Kramnik e Kasparov: O Fim De Uma Era
Vladimir Kramnik no 2018 Paris Grand Chess Tour. | Foto: Maria Emelianova/Chess.com.

Kramnik e Kasparov: O Fim De Uma Era

A decisão de Vladimir Kramnik de deixar o xadrez profissional  abalou o mundo do xadrez. Muitas pessoas tiveram até uma sensação de deja vu. De facto, existe uma inquietante semelhança com 14 anos atrás quando Garry Kasparov abandonou o xadrez.

Estranhamente, ambos estes extraordinários jogadores perderam as suas últimas partidas profissionais da mesma maneira suicida:

É claro que ainda existe uma grande diferença entre estes dois acontecimentos. Quando Kasparov anunciou a sua decisão de deixar o xadrez, ele ainda venceu o seu último torneio e era o número-um mundial, o que é totalmente diferente do caso de Kramnik.

Para além disso, enquanto o anúncio de Kasparov chegou de forma completamente inesperada, durante os últimos 5-6 anos Kramnik estava claramente a dar a intender que estava prestes a abandonar o xadrez profissional. Ainda que Kramnik nos tivesse avisado durante muito tempo que o dia viria, esta ainda é uma grande perda para o xadrez.

Garry Kasparov
Garry Kasparov. | Foto: Maria Emelianova/Chess.com.

Existem inúmeros livros e artigos sobre Kramnik, por isso eu não irei repetir factos bem conhecidos tais como quando Vladimir nasceu ou quando ele obteve o seu título de GM. Em vez disso eu desejo falar-vos da influência que Kramnik teve no meu xadrez e porque é que a sua decisão de abandonar o xadrez profissional é na verdade o fim de uma era.

A primeira vez que eu reparei no seu nome foi quando eu vi a seguinte partida. Eu estava à procura duma arma contra 1.d4 que desse às Pretas uma posição atacante e que ao contrário de outras aberturas, tal como a defesa da Índia de Rei, não exigisse demasiada teoria para memorizar. O Gambito de Budapeste era um dos candidatos que eu considerava. Foi assim que eu reparei numa partida publicada numa das revistas Soviéticas de xadrez.

A ideia das Pretas de deslocar uma torre era relativamente nova e a partida inteira causou uma forte impressão sobre mim. Eu reparei também no nome do futuro campeão mundial.

"O miúdo sabe jogar xadrez!" pensei eu do Kramnik de 12 anos.

Avancemos rapidamente dois anos e eu tive a oportunidade de jogar contra Kramnik sobre o tabuleiro. Era um torneio de qualificação para o campeonato Europeu de xadrez de Juniores. Eu cedi apenas dois empates e venci facilmente o torneio.

Na verdade, o maior problema era de entrar neste torneio, uma vez que o chefe do xadrez júnior Soviético, Anatoly Bykhovsky, usava a sua tática habitual de me tentar excluir do torneio dizendo que "Serper não é um bom jogador de xadrez," ainda que eu tivesse empatado em primeiro lugar no Campeonato Mundial de Juniores do ano anterior.

Podes ler sobre a sua personalidade incomparável, que dominou o xadrez júnior Soviético por mais de 40 anos, neste artigo. No entanto, eu provavelmente não me devo queixar muito do comportamento de Bykhovsky, uma vez que sempre que ele me chamou um jogador fraco de xadrez isso me deu motivação extra e eu tive um grande evolução. Desta vez depois de vencer o torneio de qualificação eu venci facilmente o campeonato Europeu de Juniores 1,5 pontos em frente dum grupo que incluía Topalov, Van Wely, Dreev e outras estrelas futuras do xadrez. 

Um dos dois empates que eu fiz no torneio de qualificação foi contra Kramnik. Eu estava de Pretas e joguei a Siciliana Dragão. Apesar da sua jovem idade, Vladimir jogou uma linha posicional controlada onde as Brancas fazem um roque na ala de rei, e depois de algumas manobras um empate foi concordado. Infelizmente eu não consigo encontrar esta partida numa base de dados, mas eu recordo-me claramente que fiquei impressionado com o jogo muito maduro de Vladimir.   

Durante o nosso postmortem, Kramnik impressionou-me ainda mais. A maneira como ele pensava sobre os seus lances e a posição deixou poucas dúvidas de que eu estava a falar com um mega-talento.

Vladimir Kramnik.
Vladimir Kramnik. | Foto: Maria Emelianova/Chess.com.

Nós jogámos outra partida dois anos depois e de novo eu estava de Pretas. Era o campeonato Soviético para jovens mestres com menos de 26 anos. Esta foi uma partida esquisita, uma vez que durou apenas 16 lances e houveram duas ofertas de empate! Primeiro foi Kramnik quem me ofereceu um empate por cerca do lance 12, que eu rejeitei, mas muito em breve eu caí em mim e apercebi-me que a posição não era tão boa como eu tinha pensado, por isso eu ofereci um empate que foi aceite. Aqui está a partida:

Este torneio foi o primeiro grande sucesso de Kramnik. Ele empatou em primeiro lugar e jogou várias partidas notáveis. Aqui está a minha partida favorita de Kramnik, que era tão interessante que na verdade me distraiu da minha própria partida!

Durante um dia de descanso Kramnik mostrou-me um conceito interessante na abertura Inglesa. Este não era um lance ou variante novos, apenas um conceito geral de jogar um certo tipo de posição. Por aquela altura eu já tinha jogado a abertura Inglesa durante três anos e estudado um monte de livros sobre esta abertura. No entanto, o que Kramnik me mostrou em apenas 10 minutos abriu-me de facto os olhos. Muitos anos mais tarde a sua capacidade de criar novos conceitos de abertura tornou-se na marca de Kramnik. Para começar ele transformou o primeiro lance 1.Cf3 numa arma de abertura formidável e depois ele criou o Muro de Berlim.

A variante de Berlim da Ruy Lopez era conhecida há mais de 100 anos, por isso Kramnik não a inventou, é claro. Tal como com a variante da abertura Inglesa que ele me mostrou, a Berlim de Kramnik não era uma linha específica, era mais como um conceito completamente novo.

Eu fui suficientemente afortunado de usar a lição de Kramnik sobre a abertura Inglesa no mesmo torneio:

Mais tarde eu venci muitas partidas nesta variante, incluindo uma que me ajudou a obter a minha primeira norma de GM!

Devido ao seu sucesso neste torneio, Kramnik foi convidado para a equipa Soviética no Campeonato Mundial de Equipas Estudantis de 1991, ainda que Kramnik não tivesse a idade. De acordo com o livro Прорыв (The Breakthrough) escrito por Kramnik e Damsky em 2000, o problema foi resolvido com facilidade. O governo emitiu simplesmente um cartão de identificação falso para Kramnik. Segundo o livro, Kraminik não foi o único que jogou naquele torneio com uma identificação falsa e essa foi um das razões porque este torneio, que era muito popular da década de 1960 à década de 1980, desapareceu simplesmente.

Entretanto Kramnik começou a jogar em torneios na Europa. Estes torneios eram muito lucrativos para os jogadores de xadrez da antiga União Soviética. Depois do colapso do gigantesco império, a economia estava num tal estado que se tivesses umas dúzias de dólares no teu bolso tu até podias lá viver como Rockefeller! Com uma taxa de câmbio ridícula para o ruble em queda, tudo era extremamente barato se pagasses em dólares.

Eu lembro-me de Kramnik me perguntar se eu ia jogar num torneio aberto em Gausdal. Eu respondi que embora eu gostasse realmente deste torneio onde eu ganhei a minha segunda norma de GM no ano antes, infelizmente desta vez eu teria de passar por já ter algo planeado. 

"E tu?" eu perguntei a Kramnik.

"Estás a brincar?" foi a sua resposta. "Uma passagem de ida-e-volta de Moscovo para Oslo é apenas seis dólares!"

Neste torneio, Kramnik produziu uma miniatura muito bonita:

Na próxima parte deste artigo, nós veremos como um jovem mestre de 17 anos se transformou num verdadeiro monstro xadrezista!


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