Podem os Jogadores de Xadrez Aprender Com o Pôquer?

Podem os Jogadores de Xadrez Aprender Com o Pôquer?

Gserper
GM Gserper
02/04/2017, 00:15 |
49 | Diversos

Xadrez e Pôquer são frequentemente comparados na medida em que ambos os jogos são baseados em pensamento estratégico e capacidade de decisão. Eu conheço muitos jogadores profissionais e semi-profissionais de xadrez que abandonaram completamente o xadrez em favor do pôquer. 

A uma determinada altura os numerosos adeptos do super-GM Alexander Grischuk estavam muito preocupados que ele pudesse ser mais um acidente desta tendência. Felizmente ambos o GM Grischuk e WGM Almira Skripchenko (que ganhou mais de $250.000 na sua carreira de pôquer), decidiram ficar no xadrez.

Como podes ver, muitos jogadores de xadrez tentaram utilizar as competências adquiridas ao jogar xadrez na mesa de pôquer. Mas podem as competências de pôquer ser úteis no tabuleiro?

Embora tivéssemos tocado ao de leve no assunto de blefe no xadrez neste artigo, a razão para discutir novamente o assunto do xadrez e pôquer é a seguinte ideia bizarra de um amador de xadrez. Ele citou o tweet recente de Bill Mitchell:

"Um dos meus truques favoritos ao jogar pôquer é apostar em grande numa mão que eu sei que vou perder de modo que o meu oponente pense que eu estou a fazer blefe da próxima vez..." 

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Portanto, o acima mencionado amador de xadrez sugeriu fazer uma asneira deliberada no início da partida, de modo que o teu oponente pense que és um principiante completo que não sabe como jogar xadrez. Depois tu montas uma armadilha e ofereces isca. Como o teu oponente ainda pensa que esta é somente mais outra asneira de principiante, ele/a toma a isca e prontamente perde a partida .

Tu sabes, eu não jogo pôquer, e portanto não sei quem é o Bill Mitchell (e uma pesquisa rápida na Google não me deu qualquer resposta). O indivíduo pode ser uma estrela do pôquer ou somente um amador. Além do mais, uma vez que não jogo pôquer, eu não posso dizer se a estratégia do Bill Mitchell é boa ou má. 

Mas eu posso dizer-te que em xadrez esta ideia seria ao mesmo tempo ridícula e estúpida.

Aqui está como eu vejo esta "estratégia' no xadrez.

1) Ao iniciar a partida tu cometes uma asneira ridícula. Eu assumo que seria algo como isto:

Portanto, o teu oponente acredita que tu és um principiante e toma o bispo.

2) Um pouco mais tarde, tu montas uma armadilha e das-lhe outra peça de graça. Provavelmente deve ter este aspecto:

Tão ridículo quanto este plano possa parecer, eu não posso dizer que seja completamente sem sentido e que nunca poderia funcionar. Primeiro de tudo, depois da tua asneira inicial 2.Ba6?? o teu oponente pode começar a dar tantas gargalhadas que ele/a morre de rir e consequentemente tu irás vencer por desistência. Segundo, contra um principiante completo o plano pode dar resultado porque os principiantes geralmente aceitam todas as peças livres que lhes são oferecidas sem se preocuparam com as consequências.

Mas, eu posso garantir-te que contra este tipo de jogador tu não precisas da inicial, asneira intencional, uma vez que o principiante aceitará a isca real mesmo sem a tua preparação psicológica sofisticada!

Portanto, porque é que esta estratégia pode resultar no pôquer mas muito certamente não no xadrez se tu estás a jogar com alguém com um USCF acima de 1500? Para responder a esta questão, olhemos para a 'teoria do jogo'.

A teoria do jogo divide todos os jogos em duas categorias: cooperativos e não-cooperativos. Xadrez e pôquer são ambos obviamente jogos não-cooperativos na medida em que os adversários tentam alcançar os seus próprios objetivos: a vitória de um jogador é certamente a derrota de outro!

Wikipedia afirma:

"Jogos não-cooperativos são geralmente analisados através da estrutura da teoria de jogos não-cooperativos, que tenta prever as estratégias e recompensas individuais dos jogadores e encontrar o equilíbrio de Nash." O equilíbrio de Nash é uma das fundações da teoria do jogo. O Wikipedia explica-o assim: "Na teoria do jogo, o equilíbrio de Nash é um conceito de solução de um jogo não-cooperativo envolvendo dois ou mais jogadores em que se assume que cada jogador sabe as estratégias de equilíbrio dos outros jogadores, e nenhum jogador tem nada a ganhar por mudar a sua própria estratégia." 

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Portanto basicamente, semelhante à primeira lei de Newton que diz que "um corpo em movimento permanecerá em movimento a menos que sofra uma força exterior," o equilíbrio de Nash diz que um jogador num jogo não tem um incentivo para mudar a sua estratégia corrente a menos que o oponente mude a sua estratégia corrente. Até aqui tudo bem.

Parece que isso somente prova que quando nós começamos o estratagema ao jogar 2.Ba6?? nós conduzimos os nossos oponentes por um caminho, que eles continuarão a seguir até descobrirem o engano quando nós lhes damos xeque-mate. Mas se formos mais a fundo, nós achamos uma grande diferença entre o xadrez e outros jogos populares, incluindo o pôquer. A Wikipedia chama ao xadrez um jogo de "perfeita informação", onde tu podes ver toda a informação no tabuleiro. Ao mesmo tempo gamão tem informação perfeita no tabuleiro, mas tem lances à sorte (o rolar dos dados). E o pôquer? A Wikipedia diz que o pôquer tem ambos "informação imperfeita" (algumas ou todas as cartas estão na posse dos outros jogadores) e "lances à sorte" (as cartas sendo distribuídas).

Daí enquanto que superficialmente o xadrez e o pôquer podem parecer semelhantes, na realidade eles são completamente diferentes! Portanto, ao contrário do pôquer, quando tu ofereces aos teus oponentes um "presente de graça" como isca, eles vêm toda a informação no tabuleiro (recorda-te, ao contrário do pôquer, o xadrez é um jogo de perfeita informação), vêm a ratoeira óbvia e rejeitam o teu sacrifício -- e toda a tua estratégia irá falhar! 

Quer isso dizer que os jogadores de xadrez não podem aprender algo com o pôquer uma vez que é um jogo completamente diferente? Eu penso que podemos! Tal como no pôquer, é muito importante compreender a estratégia geral do teu oponente; tentar ler a sua mente. Depois podes tentar encaminhar a partida na direção que será mais desagradável para o teu oponente! Aqui está um bom exemplo da minha juventude. 

A primeira abertura que eu aprendi para as Pretas foi a variante do Dragão da Siciliana. Eu adorava a excitação de um ataque na posição com torres em lados opostos. Para te dizer a verdade, esta excitação e agitação de adrenalina eram ainda mais importantes do que o resultado da partida! Se eu conseguisse este tipo de posição, eu podia jogar bastante bem:

Depois da partida eu descobri que esta combinação inteira tinha acontecido numa partida entre Althausen e Simagin jogada em1943, e esta informação fez-me ainda mais orgulhoso uma vez que me senti como se tivesse jogado como um grande mestre!

Mas por vezes os meus oponentes adultos pensavam: "porque é que eu hei-de jogar todas estas posições complicadas contra um miúdo que pode provavelmente calcular algumas variantes, mas não sabe a primeira coisa sobre a estratégia no xadrez?" E portanto, eles faziam o roque na ala do rei e eu sentia-me defraudado. Isto não era o que eu gostava.

Todos os jogadores de xadrez experientes "jogam o oponente" de alguma forma. Eu recordo-me de que antes de jogar contra o GM Etienne Bacrot no famoso torneio de Cap d'ages eu estava a pensar sobre a minha estratégia para esta partida nocaute. Eu sabia que o meu oponente era mais novo do que eu e já tinha um rating mais alto. Eu suspeitava também que como todos os jovens ele gostava de posições penetrantes e sabia todos os novos desenvolvimentos da teoria moderna de aberturas. E portanto, eu decidi a seguinte estratégia:

1) Seguir o velho dito do xadrez soviético: "С молодёжью в эншпиль!" (aproximadamente traduzido: "quando jogas com jovens, vai direto para o final da partida!")

2) Todas as aberturas que eu jogaria no encontro deveriam estar muito na moda. Quer dizer, muito na moda na ano em que os pais do Etienne nasceram!

Aqui está uma das partidas do nosso encontro:

E aqui está o último desenvolvimento da abertura que eu estava a seguir:

Tanto quanto eu sei, muitos jogadores profissionais de pôquer usam óculos de sol, de modo a que os seus oponentes não possam ver os seus olhos. Felizmente, os jogadores de xadrez não o fazem, com a excepção desta partida famosa:

Da próxima vez antes da partida, olha para os olhos do teu oponente. Tenta adivinhar os seus pensamentos, quais são os gostos e aversões dele/a . Qual é o seu estado de espírito? Esta informação pode ser bastante útil para o teu processo de decisão durante a partida!

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