Porque Estava Kasparov a Pensar Profundamente?

Porque Estava Kasparov a Pensar Profundamente?

Gserper
GM Gserper
27/08/2017, 00:00 |
0 | Diversos

Desafiem-se a vocês próprios e irão desafiar o mundo.

—Garry Kasparov, "Deep Thinking"

No artigo da semana passada nós declarámos o facto óbvio de que o torneio da Saint Louis Rapid e Blitz foi efetivamente arruinado para Kasparov pela sua extremamente pobre gestão de tempo. Hoje iremos tentar entender como um jogador tão experiente como Kasparov pôde colocar-se nessas extremas dificuldades de tempo em cada partida!

A explicação mais popular de Kasparov jogar tão lentamente foi a sua idade. Enquanto que com os seus 54 anos ele era na verdade muito mais velho do que qualquer outro participante do torneio, eu não subscrevo esta teoria. Durante a minha carreira de xadrez eu joguei com muitos grande mestres famosos que tinham a tendência a jogar mais rapidamente à medida que envelheciam. Eles explicaram que à medida que as pessoas envelhecem elas também se cansam mais rapidamente.

Consequentemente pensar por muito tempo é totalmente contraproducente para jogadores mais velhos uma vez que resulta em inevitáveis asneiras nos finais de partida quando eles ficam muito cansados.

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Foto: Chess.com/Maria Emelianova.

A minha explicação pessoal para a má gestão de tempo de Kasparov é totalmente diferente e tem algo a ver com a natureza humana fundamental. Deixa-me dar-te um exemplo. Durante os anos em que eu fui treinador eu notei que muitos jogadores inexperientes detestam de sacrificar material mesmo se os benefícios posicionais são óbvios e tudo o que é necessário é sacrificar um só peão.

Deixa-me mostrar-te do que estou a falar. Aqui está uma partida muito famosa do confronto do campeonato do mundo:

Para qualquer jogador de xadrez experiente, o sacrifício do peão 15.g4 não tem nada que pensar. Na verdade a coluna aberta e um ataque direto muito forte contra o rei preto devem mais do que compensar pela desvantagem material mínima. Entretanto quando eu falo para jogadores com ratings mais baixos sobre sacrifícios como este, temos geralmente a seguinte discussão:

Eu: Consegues ver como o ataque das Brancas vai ser tão forte depois do sac?

Estudante: Sim.

Eu: Portanto, se tu tens uma posição semelhante tu irás sacrificar um peão desta maneira, não é verdade?

Estudante: Nem pensar!

Eu: Porquê??

Estudante: E se o meu oponente defende e então eu irei perder um final porque estou em desvantagem dum peão!?

Podes rir tanto quanto queiras, mas eu tenho tido este tipo de conversa demasiadas vezes, portanto eu já não acho divertido. Na verdade o desejo de manter as coisas sob controle (ou acreditar que consegues manter as coisas sob controle) é muito natural e tu podes vê-lo por todo o lado.

Por exemplo, na edição de Setembro da revista 'Money' havia um pequeno artigo por Helen Rothberg. Neste artigo a autora explicou que a única razão porque ela mudou de um emprego a servir a mesa para um a servir ao bar é a sensação de controle. Confuso(a)? Aqui está a explicação dela:

Eu apercebi-me que as minha gorjetas estavam dependentes de tantas coisas que não tinham nada a ver comigo: a rapidez com que a comida era preparada, quantas vezes o rapaz enchia os copos com água e levantava os pratos, e se os clientes podiam ou não ter uma batata cozida e o arroz. 

Entretanto ela diz que quando se tornou uma empregada de bar ela sentiu algo que nunca tinha sentido num emprego antes: um sentido de calma e controle -- que o que fazia, e como o fazia, podia influenciar a minha gorjeta."

Se pensares sobre isso, a maioria das coisas que as pessoas fazem (obter uma posição mais alta no seu emprego, ganhar mais dinheiro, etc.) são sempre para ganhar mais controle das suas vidas. Portanto, como podemos nós censurar um jogador de xadrez que se recusa a fazer um sacrifício de peão prometedor por medo de perder o controle sobre a partida?

Um jogador de xadrez como esse sente que depois dum sac de peão o destino da partida passa totalmente para as mãos do adversário. Se o oponente acha um lance correto ou uma sequência de lances e defende contra o ataque, então ele irá certamente vencer o final resultante tendo a vantagem de um peão!

Por esta altura tu estarás provavelmente a perguntar o que é que esta armadilha psicológica em que jogadores inexperientes caem tem a ver com as dificuldades de tempo de Kasparov? Tem paciência comigo por favor, iremos lá chegar!

Deixam-me mostrar-te outra partida famosa:

Em ambas as partidas Spassky-Petrosian e Karpov-Korchnoi, o ataque das Brancas depois do sacrifício de peão foi muito forte, mas qualquer jogador de xadrez iria preferir o ataque de Karpov sobre o de Spassky porque todos os lances de Karpov depois do sac de peão foram lances forçados e na partida de Spassky muitos mais lances não foram forçados.

Aqui está o que Jacob Aagaard escreve no seu maravilhoso livro "Excelling at Chess":

Variantes forçadas dão-nos uma sensação de controle, enquanto que um jogo menos forçado, em contraste, pode deixar-nos com uma sensação de estar a flutuar no ar e com falta de controle.

Como vês é sempre sobre a busca de controle! Entretanto, é fácil de ver que durante uma partida, a vasta maioria do tempo nós estamos a usar a metáfora de Aagaard, simplesmente a "flutuar no ar." É impossível de jogar lances forçados em todas as posições e portanto a sensação de incerteza e de falta de controle é típica da maior parte de qualquer partida. Quando jogas partidas de torneio regularmente tu aprendes a viver com este sentido de incerteza. A certa altura tu estás tão habituado que praticamente nem te dás conta disso.

Além disso, com bastante frequência tu podes beneficiar desta incerteza. Aqui está o que o famoso treinador Soviético Mark Dvoretsky escreveu sobre o assunto:

Jogadores experientes frequentemente tentam "manter" a posiçãonão a fixando e sem mudar radicalmente a sua configuração (e forçando os eventos somente quando isso oferece benefícios óbvios).

Eu destaquei deliberadamente a última frase para acentuar que não queres forçar o jogo só para obter uma falsa sensação de controle sobre a posição. 

Agora voltemos para Kasparov. Na entrevista após-evento ele disse: "Eu não sei o que aconteceu...Em cada partida eu tive uma espécie de paralisia...Eu não sei se é a idade ou o que é."

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Foto: Chess.com/Maria Emelianova.

É difícil para mim de acreditar que Garry Kimovich não saiba o que realmente atormentou as suas partidas uma vez que a resposta é bastante óbvia. Ele não jogou num único torneio oficial em 12 anos e naturalmente a sua habilidade de suportar a incerteza apanhou um grande golpe!

Lembra-te, quando há quase 70 anos atrás Botvinnik se tornou o campeão do mundo ele não jogou em muitos torneios. Durante a sua preparação para o confronto do campeonato do mundo vs. o GM Bronstein ele dependeu principalmente no seu trabalho analítico. Como resultado ele quase que perdeu o seu título.

Mais tarde Botvinnik escreveu que nenhuma quantidade de trabalho analítico seria um substituto para a prática de torneio. Ele estava absolutamente correto uma vez que nenhuma quantidade de preparação analítica te prepararia para este sentido de incerteza.

Após 12 anos de inatividade Kasparov não conseguiu simplesmente tolerar este "flutuar no ar" e consequentemente tentou forçar as coisas. Se ele não conseguia achar uma boa linha forçada ele continuava a calcular, queimando montes de tempo e perdendo a sua energia desnecessariamente!

Aqui estão alguns exemplos para demonstrar o ponto.

Após 31...Te1 Kasparov tinha cerca de três minutos e 25 segundos restantes no seu relógio. Enquanto falando em geral isto não é muito, levando em conta a posição completamente vitoriosa e o retardamento de tempo, isso ter sido mais do que suficiente para vencer a partida.

Aqui a maioria dos mestres jogaria 32.e6 sem pensar muito, mas Kasparov gastou mais de um minuto à procura duma vitória forçada! Consequentemente ele deu dois xeques de torre e obteve a seguinte posição:

Mais uma vez, o lance mais natural, 34. e6, que qualquer jogador experiente teria feito quase imediatamente, vence logo. Em vez disso, Kasparov gastou outros 30 segundos e jogou 34.Cd3 tentando forçar uma vitória. De facto o cavalo ataca a torre em e1 e controla a casa-chave c1 e parece que a partida está acabada. O que ele não viu é que depois de 34...Te3! ele não pode jogar  35.Rd4 como ele tencionava inicialmente devido a um golpe muito forte 35...f4!

Foi muito doloroso de assistir ao resto da partida. Eu tenho a certeza que se Kasparov tivesse deixado a sua mão simplesmente ter jogado os primeiros lances que ele viu, ele teria vencido a partida. A sua mão nunca teria jogado lances horrendos tais como 34.Cd3?? Mas aí esteve o problema todo: ele não confiou na sua intuição para fazer os lances e tentou em vez disso de calcular tudo, procurando por 100 porcento de controle sobre a posição.

Iremos ver Kasparov de novo em acção? Eu desejo sinceramente que sim!

Se ele aprender com a sua experiência neste torneio e jogar um monte de partidas de treino contra oponentes de valor antes da sua próxima aventura, então eu não ficaria surpreendido de o ver entre os primeiros três classificados no próximo torneio da Sinquefield rapid e blitz. 


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