Psicologia e Neurociência Para Aprender de Tudo (NÃO É O FEYNMAN!!!)
Se uma pessoa está de dieta e oferecemos a ela um bombom para daqui há uma semana, é fácil para ela resistir à tentação, pois ela não se vê experimentando o prazer do bombom daqui há tanto tempo. Porém, se oferecermos o bombom para agora, aí a proposta fica muito mais tentadora.
Você provavelmente concorda com o que está escrito acima. Mas talvez você nunca tenha percebido que a mesma situação é o que acontece quando procrastinamos nossos estudos: de matemática, de português... e de xadrez. A procrastinação é causada pela ilusão de que executar uma tarefa agora (como manter a dieta ou estudar) será penoso demais, sendo que existe uma alternativa prazerosa (redes sociais, televisão, videogame, BULLET...) que não será tão prazerosa mais tarde.
Aliás, cientistas observaram que o mesmo vale para coisas desagradáveis, que podem parecer mais ou menos desagradáveis dependendo da maior ou menor proximidade — por exemplo, pessoas que têm medo de dentista ficam menos relutantes em agendar uma consulta para o mês seguinte do que para amanhã.
A procrastinação é um dos assuntos tratados por Daniel Willingham, ph.D em psicologia pela universidade de Harvard. Willingham é um autor honesto, que admite que estudar não é fácil, mas que as pessoas dificultam mais do que o necessário. Uma de suas maiores queixas, como pesquisador, é a lentidão com que descobertas da neurociência são aplicadas à educação.
Em seu excelente livro Otimize Seu Aprendizado, Willingham, sabendo que o cérebro muitas vezes nos engana, e que ele precisa ser "domado", o tempo todo compara o que o cérebro vai fazer quando estivermos estudando com o que nós realmente precisamos fazer para ter um melhor rendimento em nossos estudos.

Como a grande dificuldade em vencer a procrastinação é poder escolher entre fazer uma tarefa ou se divertir, a solução é eliminar essa escolha, o que pode ser feito tornando a sessão diária de estudo um hábito. Assim como não se escolhe escovar os dentes todos os dias, transformar o estudo num hábito remove a necessidade de escolher entre estudar ou fazer outra coisa. Quanto às tentações, estas podem ser transformadas em recompensas para depois do trabalho árduo.
O hábito, por sua vez, pode ser criado por meio de pequenos “empurrões”, como fazer um acordo consigo mesmo, do tipo: estudar cinco minutos e fazer uma pausa (essa pausa deve ser feita sem remorsos, e serve para fazer o estudo parecer menos intimidador); depois da pausa, voltar ao trabalho e, caso seja realmente muito ruim continuar estudando, parar.
A pessoa perceberá que, depois de começar o trabalho, é muito mais fácil continuar. O mesmo vale para outros hábitos, como a caminhada: se você fizer um acordo de ir pelo menos até a esquina da sua rua todos os dias, verá que acabará andando muito mais do que isso.
Outra estratégia é o aluno contar para pessoas próximas seu compromisso de parar de procrastinar e contar quais tarefas ele próprio irá fazer nos próximos dias (estudar xadrez, terminar um livro, ...). Essa publicidade gera cobranças ao redor do estudante, que adicionam um incentivo extra para que ele cumpra com suas obrigações, sob pena de constrangimento. A ideia é usar a seu favor o fato de que o ser humano é um ser social e se importa com o que outros pensam sobre si mesmo.
Mas a procrastinação não é o único tema tratado por Willingham. Seu livro traz conselhos valiosos, colecionados ao longo de décadas de estudo e de prática profissional como psicólogo e professor, para todos os momentos do aprendizado, desde assistir a uma aula até a hora de se sentar para fazer uma prova (que podemos trocar por jogar uma partida ou campeonato de xadrez).
Quando alguém assiste a uma aula, é normal acontecer uma dessas coisas: ficar com medo de perder alguma informação, e anotar tudo o que ouve; ou começar anotando, mas ser vencido pelo cansaço e parar de escrever. As duas atitudes são prejudiciais.
O ideal é anotar de forma seletiva, dando preferência às informações mais importantes (como identificá-las? Pense na aula como um livro com títulos e subtítulos. São esses títulos e subtítulos que importam), e sempre parafrasear o que o professor diz, pois isso força a prestar atenção para ser capaz de compreender o que está sendo abordado e reescrever com as próprias palavras. A paráfrase é benéfica para a memória.
As anotações servem para serem estudadas depois. Isso parece óbvio, mas é comum estudantes darem pouca importância às suas próprias anotações. O motivo é que o cérebro humano se acostumou a não prestar muita atenção a coisas familiares, concentrando sua energia a "ameaças". Consequentemente, ficamos impacientes vendo nossas anotações e queremos passar por elas o mais rápido possível. A solução é simplesmente ignorar o cérebro e revisar pacientemente o que escrevemos.
Fora as aulas, o estudo também inclui um momento solitário, que é a leitura. Ao ler livros, grifar não é o melhor método, porque não sabemos de antemão quais são as informações mais importantes, e porque os grifos não relacionam ideias umas com as outras.
O ideal é ler fazendo perguntas a si mesmo e respondendo-as. Isso força a prestar atenção e a relacionar ideias, algo que os livros técnicos omitem, por questão de espaço. Essas perguntas também podem ser preparadas previamente. Primeiro, o leitor faz um exame rápido do material, para reconhecer o terreno. Depois, cola post-its em lugares estratégicos (no mínimo, ao final de cada seção do livro) com perguntas a serem respondidas numa segunda leitura, mais atenta e aprofundada.
Para estudar para provas (ou partidas, ou torneios de xadrez), o método recomendado por Willingham é parecido: montar um grande guia de estudos. Esse guia é um baralho, em cujas cartas nós escrevemos, de um lado, uma pergunta, e do outro, sua resposta. O baralho deve ser o mais completo possível: nenhum conteúdo sobre o que estamos estudando deve ficar de fora.
As cartas devem conter tanto perguntas que pedem o nome de um conceito a partir da definição, quanto perguntas que pedem a definição de um conceito. Na hora de estudar, deve-se embaralhar as cartas, e ler e responder, em voz alta, a cada pergunta que for sento retirada.
Truques mnemônicos, como musiquinhas e acrósticos, devem ser usados somente quando não for possível atribuir sentido a um conteúdo, como no caso de decorar nomenclaturas.
Na hora da prova ou partida, antes de mais nada é necessário manter a calma. Uma sugestão é praticar o mindfulness, que consiste em exercícios diários de respiração e meditação para se concentrar no presente e não ficar ansioso com o passado e nem com o futuro.

Recobrado o foco, as provas ou partidas requerem basicamente duas coisas: que se recorde informações (no caso do xadrez, as ideias típicas de uma abertura, por exemplo) e que se faça algo com elas, como resolver um problema. Por isso, estudantes costumam associar diretamente o seu desempenho em provas com o quanto estudaram (o que se traduziria no tamanho da bagagem conceitual levada para a prova), mas negligenciam o processo de extrair informações da memória, concentrando-se em aproveitar qualquer lembrança que consigam acessar facilmente.
Nesse aspecto, um caso particularmente traiçoeiro é o do “conhecimento-estalo”, quando, depois de ter se preparado para a prova, duas ideias ficam tão fortemente ligadas no cérebro que a primeira alternativa que relacione as duas é marcada como certa, o que pode não ser verdade. Clique aqui e leia meu artigo sobre o livro Rápido e Devagar, de Daniel Kahneman, que comenta sobre a origem dos erros por associações indevidas.
Estudantes também gastam tempo e energia interpretando “o que as questões realmente querem dizer” ou “o que o professor quer que eu diga” e pensando em “estratégias de prova”, como descartar alternativas que contenham as palavras “sempre” ou “nunca”.
Em vez disso, Willingham recomenda administrar o tempo da prova para ler cada questão com cuidado, resistir às primeiras informações que vierem à mente e se esforçar para lembrar do que for necessário para responder corretamente. No xadrez, administrar o tempo de uma partida nos ajuda a organizar nosso pensamento, pesando as ameças que temos de defender e os avanços que podemos fazer.
Feita a prova, Willingham ensina sobre como aprender com o resultado obtido. O autor adverte que fazer isso requer disposição, uma vez que não é agradável dissecar uma prova na qual o estudante teve um resultado abaixo do esperado (ou analisar uma partida perdida, ou um campeonato no qual não fomos bem) — já quando o resultado é bom, pode acontecer algo parecido com a sensação de perda de tempo em revisar as próprias anotações de aula, por estas ainda parecerem familiares.
No entanto, evitar diagnósticos simplistas como “Preciso estudar mais” e revisar as próprias provas depois das devolutivas sempre é uma oportunidade interessante para se aprender com os próprios acertos e erros e se preparar para novas avaliações.
Segundo o autor de Otimize seu Aprendizado, não há motivo para se envergonhar em rever as próprias provas, pois os erros não querem dizer nada além de que eles devem ser evitados nas próximas oportunidades. Muitas pessoas se afastam de seus equívocos alimentadas por duas ideias: (i) ou se nasce inteligente, ou ignorante, e não se pode mudar o estado em que se nasceu e (ii) pessoas inteligentes nunca erram.
Sendo assim, concluem que a constatação de erros no próprio trabalho sinalizaria uma ignorância inata, o que ameaça o senso de identidade dessas pessoas.
Pior: pode levar à autossabotagem, situação na qual o aluno não estuda praticamente nada e se ocupa com outras coisas, para ter uma desculpa caso seus resultados nas provas sejam ruins. Felizmente, as premissas (i) e (ii) são absolutamente falsas.
Ao contrário do que elas dizem, qualquer pessoa pode se tornar mais inteligente em qualquer assunto que deseje, desde que aprenda — por exemplo, revendo seus enganos sobre a matéria. Dito isto, Willingham recomenda que os erros cometidos em provas sejam todos identificados para que possam ser combatidos.
As causas mais comuns de erros são a incompletude do guia de estudos (no xadrez, um erro desses seria negligenciar estratégia e só treinar tática, por exemplo), informações dúbias no guia, tempo insuficiente estudando o guia, falta de método para acessar memórias na hora da prova, falta de revisão da prova antes de entregá-la e uso de subterfúgios, como descartar alternativas só por conterem palavras como “nunca” ou “sempre” ou escolher uma alternativa só por esta associar duas ideias que estão próximas na memória do aluno.
Finalmente, os últimos capítulos do livro são dedicados a como planejar e seguir uma rotina produtiva. Antes de mais nada, segundo Willingham, como a aquisição de novos aprendizados requer energia, e, por outro lado, a fixação das aprendizagens tidas ao longo do dia depende da qualidade do sono à noite, é fundamental dormir bem, garantindo um ambiente tranquilo e evitando, nas horas antes de se deitar, a exposição a telas, pois a luz emitida por elas faz parecer que se está próximo do meio dia, o que confunde o cérebro, aumenta a produção de cortisol (o hormônio da vigília) e diminui a de melatonina (o hormônio do sono) no organismo.
Ressaltada a importância do sono, o autor passa a falar sobre a necessidade de adotar uma agenda para administrar a rotina, reservando tempo para cada tarefa que o estudante precisa cumprir. Em relação aos estudos, o melhor conselho é adiantá-los sempre que possível, evitando armadilhas mentais.
Um exemplo de armadilha é quando o estudante tem o hábito de se perguntar “O que eu preciso entregar amanhã?” em dias em que a resposta é “Nada”, levando-o a se sentir como se estivesse de folga quando deveria estar estudando (pode não haver nada para amanhã, mas sempre há algo para se adiantar).
Fazendo esse planejamento e seguindo-o, o aluno evitará a procrastinação e poderá estudar o suficiente, sem comprometer o lazer e o sono, e talvez ainda reste tempo para um “sobreestudo” antes das provas. Essa última sugestão amarra todo o livro de Willingham.
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