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Olimpíada da FIDE não será realizada na Rússia; Federação Ucraniana pede banimento da Rússia
Sergey Karjakin, Ian Nepomniachtchi e Nikita Vitiugov no início do 1º match na Olimpíada de Batumi de 2018. Foto: Maria Emelianova/Chess.com.

Olimpíada da FIDE não será realizada na Rússia; Federação Ucraniana pede banimento da Rússia

PeterDoggers
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A Olimpíada de Xadrez de 2022, marcada para 26 de julho a 9 de agosto, não acontecerá na Rússia. Decisão foi anunciada pela FIDE após a invasão russa na Ucrânia.

Você pode ler a posição do Chess.com sobre o assunto aqui.

A Olimpíada deste ano, juntamente com a competição para jogadores com deficiência e o Congresso da FIDE, estava programada para ocorrer em Moscou. "Faremos o nosso melhor para encontrar outro organizador para a Olimpíada. No devido tempo, forneceremos informações sobre o local e as datas do Congresso da FIDE 2022", escreveu a FIDE em comunicado na sexta-feira.

O presidente da FIDE, Arkady Dvorkovich, deu alguns detalhes durante sua conversa com jornalistas russos. Ele afirmou que foi uma decisão tomada por todo o Conselho da FIDE: "Não se trata da minha reação. Tomamos essa decisão considerando todas as circunstâncias que estão acontecendo e entendemos que os participantes da Olimpíada Mundial de Xadrez não terão condições de vir a Moscou durante esse período. Claro que foi difícil de aceitar, mas do ponto de vista objetivo era necessário. Quanto à possibilidade de realizar tais eventos no futuro, prefiro não dizer nada sobre isso. No domingo teremos uma reunião com o Conselho da FIDE, na qual falaremos sobre esses assuntos. Poderei falar mais sobre isso depois da reunião."

Ao não realizar a Olimpíada na Rússia, a Federação Internacional de Xadrez deu um passo semelhante ao da União das Associações Europeias de Futebol (UEFA), que transferiu a final da Liga dos Campeões desta temporada de São Petersburgo para Paris.

Ao contrário da UEFA, que divulgou ontem um comunicado condenando a invasão militar da Ucrânia pela Rússia, a FIDE ainda não condenou as ações militares da Rússia. Em vez disso, em um comunicado divulgado na quinta-feira, o órgão mundial de xadrez expressou "séria preocupação" com a "situação geopolítica em rápida deterioração".

O presidente da FIDE, Dvorkovich, que ocupou altos cargos no governo russo entre 2008 e 2018, esteve em turnê pela África esta semana.

Mas um alto oficial da FIDE falou sobre o assunto. O GM Nigel Short, vice-presidente da FIDE, twittou: "A invasão russa da #Ucrânia é o ato mais repugnante de agressão contra uma nação soberana".

A decisão da FIDE de transferir a Olimpíada foi publicada no Facebook nesta sexta-feira, quase ao mesmo tempo que o comunicado da Federação Ucraniana de Xadrez.

A federação pede que a União Europeia de Xadrez e todas as federações nacionais "avaliem imediatamente [os eventos violentos na Ucrânia] após a relutância da FIDE em chamar a guerra de guerra" e observa que "todas as contas bancárias e patrocinadores da FIDE estão sob sanções e a própria FIDE continua liderada por um amigo próximo de Putin, Arkady Dvorkovich."

Os dirigentes do xadrez ucraniano apelam à FIDE "para convocar urgentemente a Assembleia Geral fora do território russo e bielorrusso, para condenar o comportamento dos líderes da FIDE e a reeleição de seus órgãos dirigentes, bem como para proibir a participação de jogadores russos em eventos internacionais, e proibir representantes russos de participar de novas eleições da FIDE."

A declaração da Federação Ucraniana de Xadrez termina com um pedido de "avaliação e punição adequadas para os renomados grandes mestres que apoiaram abertamente a agressão criminosa contra a Ucrânia", nomeando o 12º campeão mundial, GM Anatoly Karpov, GM Sergey Karjakin e GM Sergey Shipov.

Karpov foi um dos 351 membros da Duma que votaram pelo reconhecimento da República Popular de Donetsk (DNR) e da República Popular de Lugansk (LNR). Karpov apareceu ontem na lista da União Europeia de pessoas físicas e jurídicas contra as quais foram impostas sanções. As sanções da UE baseiam-se no congelamento dos bens dessas pessoas na UE, bem como na proibição de viajar para a UE.

EU sanctions against Anatoly Karpov.
Sanções da UE contra Anatoly Karpov.

Shipov, um popular comentarista de xadrez russo, também é um apoiador de Putin. Na quinta-feira, ele escreveu no Facebook: "Agora Donetsk e Lugansk poderão dormir em paz. Oito anos de vida sob os bombardeios terminaram".

Karjakin apoia abertamente o governo da Rússia. Na quinta-feira, ele compartilhou seu ponto de vista dizendo que era o mesmo expressado pela jornalista da mídia estatal russa, Anna Shafran. Em um texto no Telegram, ela argumentou que a Rússia "não começou a guerra" e que "qualquer apoio ao regime de Kiev é apoio à guerra".

Karjakin: "Concordo com cada palavra que ela disse. Não poderia ser melhor colocado."

Outro tweet de Karjakin foi fortemente criticado por alguns de seus colegas. Postamos aqui o print, pois ele já foi excluído.

Karjakin tweet

Muitos outros grandes mestres russos expressaram pontos de vista completamente diferentes, de horror e descrença, e pediram o fim da guerra. O mais recente foi o do GM Nikita Vitiugov, que mora em São Petersburgo, e escreveu no Twitter: "Vou deixar minha posição bem clara: você não pode se defender no território de outra pessoa. Russos e ucranianos são irmãos, não inimigos. Pare a guerra."

Na quinta-feira, tiveram muitas reações semelhantes de outras personalidades do xadrez, inclusive da Rússia. Por exemplo, o GM Ian Nepomniachtchi, desafiante do campeonato mundial de 2021, escreveu: "Houve muitas quintas-feiras negras na história. Mas hoje é mais negra do que as outras. #нетвойне #saynotowar"

GM Peter Svidler: "O silêncio tornou isso possível. #notowar"

A GM Alexandra Kosteniuk twittou uma imagem preta sem nenhum comentário:

GM Alexander Motylev: "SEM GUERRA."

A IM russa, Alina Bivol: "Até recentemente, eu acreditava que isso não aconteceria. Gostaria de pedir aos enxadristas do mundo todo que não nos odeiem pelas ações das autoridades. Nós mesmos entendemos tudo. #notowar"

É importante notar que, embora sem comentar, muitos outros jogadores de destaque adicionaram a bandeira ucraniana aos seus perfis nas redes sociais, mostrando assim seu apoio.

Ao mesmo tempo, há uma preocupação crescente com a segurança dos enxadristas ucranianos, principalmente por causa de tweets como o seguinte, do GM Kirill Shevchenko, vencedor do torneio Lindores Abbey Blitz 2021, em Riga: "Kiev, agora, não muito longe de casa. Por favor, compartilhe em todos os lugares!!!!! Não são fotos falsas, está acontecendo agora!"

Outros grandes mestres da elite também expressaram suas opiniões. Um dos primeiros foi o GM americano, Hikaru Nakamura: "Faz muitos anos desde que estive na Ucrânia, mas ver o que está acontecendo agora é de partir o coração. Força Ucrânia".

GM indiano, Vidit Gujrathi: "Trágico e desumano".

O 13º campeão mundial, Garry Kasparov, que havia alertado sobre o que está acontecendo esta semana em seu livro de 2015, "Winter is Coming", é muito ativo no Twitter e em outras plataformas. Em particular, a seguinte sequência de cinco tweets foi retuitada muitas vezes:

O GM escocês, Jacob Aagaard, um conhecido autor e treinador, apontou a mesma coisa que a Federação Ucraniana de Xadrez havia mencionado anteriormente: o fato de que a FIDE depende fortemente de patrocinadores russos, que geralmente são empresas estatais. Alguns exemplos são: Gazprom (fornecedor de gás), PhosAgro (gigante de fertilizantes) e a mineradora Nornickel.

Aagaard: "Durante anos na FIDE, aceitamos dinheiro da Gazprom. Não importava o que a Rússia fizesse politicamente, é claro, e naquela época todos estavam felizes em recebê-lo. Agora devemos encarar a realidade e excluir a Rússia, que está financiando a guerra."

O campeão mundial Magnus Carlsen, falando à televisão norueguesa, disse: "Quando você representa um país que faz tantas coisas estranhas como a Rússia, você tem muitos altos e baixos. Tanto os jogadores russos quanto eu acreditamos que isso é algo que um país não deve fazer. Tenho que dar o meu melhor e tenho a sorte de viver num país onde há paz."

Mudar o local da Olimpíada era uma decisão esperada por parte da FIDE. Resta saber que outros efeitos a guerra na Ucrânia terá no mundo do xadrez.

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