GM Judit Polgar

Judit Polgar
Nome completo
Judit Polgar
Nascido em
23 de jul. de 1976 (idade 49)‎
Local de nascimento
Budapeste, Hungria
Federação
Hungria
Aposentado

Rating

Biografia

Judit Polgar é a maior enxadrista de todos os tempos, e praticamente não há debate sobre isso. Não há, de fato, outra jogadora que possa rivalizar com ela. Enquanto se discute se Garry Kasparov ou Magnus Carlsen é o melhor jogador da história, Polgar é claramente a melhor mulher a já ter praticado o jogo. Ela não só derrotou esses dois grandes nomes do esporte, como também superou outros campeões mundiais, como Anatoly Karpov, Viswanathan Anand, Boris Spassky, Vladimir Kramnik, Ruslan Ponomariov e Veselin Topalov.

Polgar é a única mulher a ter ultrapassado a marca dos 2700 pontos de rating, patamar que muitos consideram como a distinção de "Super GM". Ela também é a única a ter derrotado um jogador número um do mundo no ranking. E, em 1991, aos 15 anos e quatro meses, quebrou o recorde de Bobby Fischer como a mais jovem grande mestre da história — marca que hoje pertence a Abhimanyu Mishra.

Desde os 12 anos, Polgar foi a número um do ranking feminino mundial por mais de 26 anos, mantendo a liderança até sua aposentadoria, em 2014. Seu melhor ranking absoluto foi a oitava colocação no mundo, e seu rating máximo foi de 2735. Agora aposentada, Polgar seguirá como a maior enxadrista da história até que surja alguém capaz de superar seu legado.

Juventude e início da carreira (1985 a 1991)

Aos nove anos, Polgar venceu seu primeiro torneio internacional de xadrez. No entanto, sua trajetória no jogo começou muito antes, quando Judit, ao lado de suas irmãs Susan Polgar (GM) e Sofia Polgar (IM), participou de um projeto de pesquisa educacional.

"Com base em estudos educacionais, nossos pais decidiram que a vida e a carreira de suas filhas seriam um exemplo vivo, que provaria que qualquer criança saudável — se ensinada de forma precoce e intensiva — pode ser preparada para alcançar sucesso excepcional em qualquer área", escreveu Judit em seu site pessoal. "No nosso caso, isso significou seguir uma carreira no xadrez."

Os pais de Judit Polgar decidiram que ela seria campeã de xadrez. E, como se sabe, isso se tornaria realidade. Aos sete anos, Judit venceu um mestre jogando às cegas. Dois anos depois, venceu a seção sem rating do New York Open, que reunia jogadores de nível expert que ainda não haviam jogado nos Estados Unidos. Grandes mestres passaram a acompanhar suas partidas de perto, apenas para ver a jovem prodígio triunfar diante de seus adversários.

Após vencer seu primeiro torneio internacional aos nove anos, Polgar, então com 10, derrotou um IM em um torneio em 1986, e não demorou para dar o próximo passo em sua carreira. Em 1988, conquistou sua primeira norma de mestre internacional, venceu o Campeonato Mundial Sub-12 masculino (título que repetiria dois anos depois na categoria Sub-14) e terminou em primeiro lugar em um torneio à frente do GM Yair Kraidman.

Esses resultados lhe renderam o título de mestre internacional, tornando-a, na época, a mais jovem jogadora a alcançar essa marca (o recorde atualmente pertence ao GM Praggnanandhaa, que se tornou IM aos 10 anos e 10 meses). A façanha levou Mikhail Tal a afirmar que Polgar poderia se tornar campeã mundial no absoluto, já que conquistou o título de IM muito mais jovem — aos 12 anos — do que Fischer e Kasparov, que tinham 14 anos quando alcançaram o mesmo feito.

Sofia, Judit and Susan Polgar in 1998
Sofia, Judit e Susan Polgar em 1998. Foto: R. Cottrell, CC 3.0

Polgar também obteve grande sucesso nas Olimpíadas durante esse período. Em 1988, aos 12 anos, atuou ao lado das irmãs pela equipe feminina da Hungria, e Judit fez impressionantes 12,5 pontos em 13 possíveis no segundo tabuleiro, conquistando a medalha de ouro individual. A equipe nacional também ficou com o ouro, o primeiro da história do xadrez húngaro. Em 1990, Judit voltou a liderar a mesma equipe rumo ao ouro e novamente conquistou o ouro individual. Esse seria o último torneio exclusivamente feminino em que ela participaria.

Polgar tornou-se a número um do ranking feminino mundial em 1989, aos 12 anos, posição que manteve até sua aposentadoria, mais de 26 anos depois. Antes mesmo de completar 13 anos, já figurava entre os 100 melhores jogadores do mundo. "Os resultados recentes de Judit Polgar fazem com que as performances de Fischer e Kasparov em idade semelhante pareçam modestas em comparação", escreveu a revista British Chess Magazine na época.

A mais jovem grande mestre da história (1991 a 1997)

Em 1991, Polgar venceu o Campeonato Nacional da Hungria e recebeu o título de grande mestre aos 15 anos e cinco meses de idade. Ela superou por um mês o recorde de Bobby Fischer — marca que atualmente pertence a Abhimanyu Mishra.

Polgar teve diversas atuações impressionantes no início de sua carreira como GM. Em 1992, dividiu o segundo lugar com o GM Vladimir Epishin, atrás de Anatoly Karpov, no Torneio Internacional de Madri, e empatou em primeiro lugar com Evgeny Bareev no tradicional Hastings Christmas Chess Festival. No ano seguinte, venceu um match-exibição contra o ex-campeão mundial Boris Spassky por 5,5 a 4,5.

Em 1994, conquistou um torneio de super GMs, o 3º Torneio Magistral, com campanha invicta de 7 pontos em 9 possíveis. O torneio contou com nomes como Alexei Shirov, Gata Kamsky e Ivan Sokolov, que terminou em segundo com 5,5/9. Ainda naquele ano, Polgar ficou em terceiro lugar em um torneio de elite que reuniu Shirov, Kamsky, Karpov e Viswanathan Anand.

A maior enxadrista de todos os tempos (1997 a 2002)

No início de 1997, Polgar disputou o 14º Super Torneio de Linares, terminando na quinta colocação em um grupo composto por 12 fortes grandes mestres. Metade dos participantes tinha rating igual ou superior a 2700, e Polgar era a segunda jogadora com menor rating no torneio. Ainda assim, teve uma atuação sólida, somando 6 pontos em 11 possíveis e garantindo o quinto lugar.

Ela terminou à frente de dois dos quatro jogadores mais bem ranqueados do evento, Viswanathan Anand (2765) e Vassily Ivanchuk (2740), e sua miniatura de 19 lances contra Ivanchuk foi um dos destaques do torneio. Cinco meses depois, Polgar competiu no 25º Torneio Internacional de Dortmund, onde novamente ficou em quinto lugar, superando nomes lendários como Anatoly Karpov, além de Boris Gelfand e Nigel Short.

No mês seguinte, Polgar foi reconhecida por deixar sua marca no mundo do xadrez. "Há muito tempo existe um debate acalorado sobre quem é o jogador mais forte de todos; candidatos proeminentes incluem Bobby Fischer, Garry Kasparov, José Raúl Capablanca, Alexander Alekhine ou Emanuel Lasker", escreveu Robert Byrne, lendário grande mestre e colunista do The New York Times, em agosto de 1997. "Mas não há discussão sobre a maior jogadora de todos os tempos: é a húngara Judit Polgar, de 21 anos, a mais jovem de três irmãs extraordinárias."

Naquela coluna e em outras publicações, Polgar foi oficialmente reconhecida por aquilo que ainda hoje a define: a maior enxadrista de todos os tempos. Como destacou Byrne, "Polgar é a única mulher que já competiu de forma consistente em igualdade de condições com os 20 melhores jogadores do mundo". Naturalmente, tudo o que Byrne escreveu continua sendo verdade.

Polgar continuou a competir no mais alto nível do xadrez nesse período de sua carreira. Em 1998, em Wijk aan Zee, terminou no meio da tabela de um forte grupo de grandes mestres, ao lado de Karpov, Veselin Topalov e Jeroen Piket, com 6,5 pontos em 13 possíveis. Viswanathan Anand dividiu a vitória do torneio, e Polgar foi a única a derrotá-lo.

No mesmo ano, enfrentou o então campeão mundial da FIDE, Karpov, em um match-exibição, no qual venceu o campeão duas vezes e empatou as seis partidas restantes, triunfando por 5 a 3. Alguns meses depois, Polgar tornou-se a primeira mulher a disputar o U.S. Open e dividiu o primeiro lugar com Boris Gulko.

Polgar tornou-se a primeira mulher a disputar o Campeonato Mundial de Xadrez, em Las Vegas, em 1999, onde alcançou as quartas de final, sendo eliminada por Alexander Khalifman, que posteriormente conquistaria o título.

Ela deu o troco em 2000, ao vencer o fortíssimo torneio Japfa Classic, que teve como principais nomes o então campeão mundial da FIDE, Khalifman, e o ex-campeão Karpov. Ambos dividiram o segundo lugar, com 6 pontos em 9, atrás da invicta Polgar, que somou 6,5/9.

Em 2001, Polgar disputou mais um torneio de elite, em Linares, vencido por Garry Kasparov com 7,5 pontos em 10 possíveis, enquanto os outros cinco participantes empataram com 4,5 pontos. Vale destacar que Polgar empatou as duas partidas contra o campeão, que tinha 2849 de rating — desempenho superior ao de todos os demais concorrentes, entre eles Karpov, Peter Leko, Alexei Shirov e Alexander Grischuk.

Derrotando Kasparov (2002 a 2004)

No início de 2002, Polgar venceu um torneio internacional em Benidorm, na Espanha. Ela empatou em pontos com o então campeão mundial da FIDE, Ruslan Ponomariov, e o superou nos critérios de desempate, vencendo a partida final de blitz de maneira espetacular. O torneio também contou com outros grandes nomes, como Sergey Karjakin e Anatoly Karpov.

Mas o grande destaque desse período viria ainda em 2002, quando, em um confronto rápido entre a Rússia e o Resto do Mundo, Polgar derrotou Garry Kasparov pela primeira vez. Nunca antes uma mulher havia vencido o número um do mundo em uma partida oficial, e o impacto foi imediato. Kasparov abandonou e deixou rapidamente o local por uma passagem onde a imprensa não pôde alcançá-lo. Já Polgar descreveu, com razão, a partida como "um dos momentos mais marcantes da minha carreira".

Um ano depois, Polgar alcançou um dos melhores resultados de sua carreira ao terminar em segundo lugar — invicta ao longo do torneio — atrás de Viswanathan Anand, em Wijk aan Zee. O grupo também contou com nomes como Evgeny Bareev, Alexander Grischuk, Vladimir Kramnik, Karpov e Ponomariov.

Durante esse período, Polgar voltou a figurar entre os 10 jogadores com maior rating do mundo.

Retorno às competições (2004 a 2014)

Polgar fez uma pausa em 2004 e novamente em 2006 para o nascimento de seu filho e de sua filha. Em alguns momentos, teve dificuldades para recuperar a forma anterior, mas ainda assim demonstrou de maneira consistente do que era capaz ao longo desse período de sua carreira.

Por exemplo, no torneio de Wijk aan Zee em 2005, Polgar dividiu o quarto lugar com Alexander Grischuk, Michael Adams e Vladimir Kramnik, em um dos torneios mais fortes do mundo. Disputou o Campeonato Mundial da FIDE de 2005 (terminando na oitava colocação entre oito participantes) e, em 2006, ficou em quinto/sexto lugar em outro fortíssimo torneio. No Essent Chess Tournament de 2006, Polgar fez 4,5 pontos em 6 possíveis, incluindo duas vitórias contra o então número um do mundo, Veselin Topalov.

Mais momentos marcantes vieram em 2010 e 2011. Em 2010, ela venceu o Torneio Quadrangular Ajedrez UNAM com 6 pontos em 8 possíveis, derrotando Vassily Ivanchuk por 2,5 a 1,5 e Topalov por 3,5 a 0,5, que terminaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente. No mesmo ano, enfrentou David Navara, na República Tcheca, superando o mais forte jogador tcheco de todos os tempos pelo placar de 6 a 2.

Duas atuações impressionantes vieram em 2011. No Campeonato Europeu, Polgar empatou na primeira colocação e terminou com a medalha de bronze nos critérios de desempate. O torneio reuniu 393 jogadores, dos quais 167 eram grandes mestres.

Polgar também disputou a Copa do Mundo de 2011, alcançando as quartas de final antes de ser eliminada por Peter Svidler, que acabaria conquistando o título. Sua vitória sobre o cabeça de chave número um do torneio, Sergey Karjakin, foi um dos grandes destaques de sua campanha no evento.

Na Olimpíada de Xadrez de 2012, Polgar fez 7,5 pontos em 10 possíveis jogando no terceiro tabuleiro, alcançando um rating performance de 2744 — seu melhor resultado desde um torneio em 2000. No mesmo ano, derrotou Magnus Carlsen em uma partida rápida, ampliando a lista de campeões mundiais que já superou ao longo da carreira (Carlsen conquistaria o título mundial um ano depois, em 2013).

Em 2013, Polgar derrotou Nigel Short no Death Match 18 do Chess.com. O placar final foi de 17,5 a 10,5, com Polgar dominando o segmento de três minutos por 6 a 2. No ano seguinte, conquistou a medalha de prata com a equipe masculina da Hungria na Olimpíada de Xadrez. Em seguida, anunciou sua aposentadoria do xadrez competitivo.

Posteriormente, ela aceitou o cargo de capitã da equipe masculina da Hungria. Polgar segue ativa na comunidade do xadrez como comentarista, escritora, palestrante e em diversas outras funções. Também contribuiu para a introdução do xadrez nas escolas e criou iniciativas que utilizam o jogo como ferramenta educacional. Em 2015, recebeu a Grã-Cruz da Ordem de Santo Estêvão da Hungria, a mais alta condecoração do país, originalmente instituída como uma ordem de cavalaria.

Legado

Judit Polgar
Judit Polgar. Foto: Maria Emelianova/Chess.com

Para muitas pessoas, o legado de Polgar é bastante simples — ela é a melhor mulher a já ter jogado xadrez. No entanto, o que ela fez pelo xadrez — e o que continua fazendo — é muito maior do que isso.

Polgar derrubou equívocos sobre a suposta incapacidade de mulheres competirem em igualdade com homens no xadrez. Além disso, seu estilo agressivo e tático no tabuleiro tornou-se tão inspirador que muitos acreditam que a tendência de mulheres adotarem uma postura combativa no jogo se deve, em grande parte, à influência de seu próprio estilo.

Seria um erro considerá-la apenas como a maior enxadrista de todos os tempos. Suas partidas, por si só, resistem ao teste do tempo e continuarão a influenciar gerações futuras, tanto de homens quanto de mulheres. E ela ainda tem muita sabedoria enxadrística a compartilhar, como demonstra em seu trabalho atual como comentarista, embaixadora do xadrez na educação, escritora e em diversas outras frentes.

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